Kiss ainda conseguem fazer rock n’ roll all nite

Kiss no Estádio Municipal de Oeiras a 10 de julho de 2018 - Foto - Lusa

A banda aposta numa espécie de auto-paródia e, com isso, consegue maximizar e fazer render há muito tempo um estilo único em palco. Os looks são o que a maioria também quer ver e reproduzir já que muito poucos foram os fãs que vieram sem uma t-shirt da banda ou sem as características pinturas na cara que os rockeiros popularizaram.

A festa começou com ‘Deuce’, do álbum de estreia, homónimo, de 1974, a que se seguiram ‘Shout It Out Loud’, de 1976, para o álbum “Destroyer”, e ‘War Machine’, de “Creatures of The Night”, em 1982 – este com os ecrãs a mostrarem bonecos em marcha à imagem e semelhança dos membros do grupo. Começamos com a máquina do tempo ligada, portanto. A produção dos Kiss em palco é absolutamente assombrosa: plataformas que se elevam, muitos cabos, luzes com fartura e pirotecnia quase a roçar o exagero valeram o dinheiro gasto com os bilhetes. Se quem foi queria tudo, os Kiss deram tudo a mostrar que o rock está mais que vivo e com muito para dar mesmo ao fim de 45 anos de carreira.

Em ‘Shock Me’ é Tommy Thayer que canta e toca guitarra onde não falta um solo que, claro, não é um solo qualquer: é o de uma guitarra que lança foguetes (sim, é mesmo isso, não estou a recorrer a nenhuma hipérbole).

O líder dos Kiss, Paul Stanley, é o guitarrista, vocalista e o frontman mais divertido de todos os tempos. Falou com o público praticamente entre cada uma das canções interpretadas. A mensagem, que já causava gargalhada, era sempre a mesma: “Estivemos muitos anos à espera para vir a Portugal e agora vamos dar-vos uma festa. Estão a divertir-se? Queremos que cantem connosco mais esta!”. Pelo meio ainda tivemos direito a um daqueles momentos “ora gritas tu, ora grito eu”, sempre com Stanley a fazer uma voz quase de boneco que diverte e agarra totalmente as atenções naquele imenso palco onde algo estava sempre a explodir e a arder. A testa de quem estava no golden circle também sentia o calor dos lança-chamas, o que só ajudava a envolver ainda mais no espetáculo.

No fundo, as mesmas razões que levam muita gente a gozar com os Kiss são as mesmas que deixariam as más-línguas boquiabertas se tivessem passado pela experiência de ontem em Oeiras: nada falhou, nem uma nota ou momento fora do sítio. As coreografias estavam alinhadas. Os fãs ficaram entretidos, divertidos, com tanta pirotecnia como se fosse passagem de ano, com confetti, com fitas, com plataformas que elevam os músicos e muito brilho. Os Kiss gostam do que fazem e mantêm uma receita antiga que funciona, ainda que lhe tenham feito os devidos ajustes a que a indústria atual obriga. O único imprevisto, mas que também já é histórico, foi a lona gigante com o logotipo dos Kiss que teimou em não se segurar na abertura do espetáculo. E isso atrasou-os? Não; é apenas um pormenor numa festa muito maior.

Já em encore ouve-se ‘Cold Gin’. A despedida é feita com ‘Rock And Roll All Nite’. Inesquecível. Assombrosa. “Fora da caixa”. Tão fora que, já depois das luzes acesas e de um estádio em debandada, a música de fundo que se ouve é ‘God Gave Rock And Roll To You’. Quantos artistas passam músicas suas mesmo quando o concerto já terminou? Talvez só eles mesmo. Ninguém quer lembrar que “ficou esta de fora”. Também ficaram ‘Heaven’s on Fire’ e ‘Crazy Crazy Nights’ mas nós desculpamos. Afinal, são mais de 20 álbuns de estúdio. Dava para ficarem cá uma semana a tocar para nós?

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Daniela Azevedo

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