Os Madrepaz em início de projeto musical: «Gostávamos de inspirar as pessoas a fazerem coisas com verdade e amor»

Madrepaz lançam álbum de estreia

Madrepaz, uma banda portuguesa formada recentemente com antigos membros dos Golpes e outras formações, apresentaram a 11 de março o álbum de estreia, “Panoramix”, num espetáculo recheado de efeitos visuais e videomapping na Sala dos Geradores da Central Tejo (antigo Museu da Eletricidade), hoje integrado no Campus do MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia.

Depois de dois singles lançados, ‘Novas Pontes’ e ‘Sopra o Vento’, disponível mais abaixo, agora já podemos ouvir o álbum inteiro em versão física e digital.

Panoramix é o álbum de estreia dos Madrepaz
Panoramix é o álbum de estreia dos Madrepaz

Daniela Azevedo – Vocês estão agora a chegar de novo aos meus ouvidos… Quem são os Madrepaz?
Pedro da Rosa – Nos Madrepaz somos quatro. Eu canto e toco guitarra. Temos o Ricardo Amaral na guitarra e também na voz, o Nuno Canina na bateria e nos coros, e o João Canário é o nosso teclista. Somos de Lisboa e Madrepaz é a consequência de outras bandas e do nosso passado. Eu comecei a tocar com o Canina nos Golpes, que terminaram em 2011. Havia uma outra banda, chamada Armada, onde tocava o Ricardo, e a dada altura o nosso baterista saiu e convidámos o Canina a integrar. Com a entrada dele deram-se algumas alterações estéticas, até porque estávamos a crescer e a vida levou-nos a mudar muitas coisas. A música foi uma delas. Enquanto Armada, gravámos o disco “Espiral”, que nunca foi editado, porque quando chegámos ao fim do processo fomos ouvir e percebemos que o som, estética e mensagem já não correspondiam ao que tinha sido feito antes pela Armada mas descobrimos que havia ali algo interessante que queríamos explorar. Esse disco ficou na gaveta e entretanto aconteceram diversas coisas ao nível social e político que tiveram muita influência nas nossas vidas. O nosso baixista deixou de ter tempo para ensaiar, o guitarrista David resolveu ir para o Brasil viver um amor antigo, já é casado e tem uma filha [risos]. Fiquei eu, o Nuno Canina e o Ricardo e decidimos começar a brincar com o que tínhamos ouvido, a partir as músicas aos bocados, a passar mais tempo juntos a ouvir discos e este foi o início dos Madrepaz. Entretanto apareceu o João e, nessa altura, decidimos ir para o Ribatejo e ficar seis dias no meio do campo onde fizemos um esboço deste nosso primeiro disco. Desde então as coisas foram muito rápidas, fluídas, e chegámos aqui [risos].

DA – Sobre o que é o “Panoramix”? Tem algo a ver com a temática rural? [risos]
PR – O disco foi composto no Ribatejo mas gravado em Lisboa. Passando muito tempo juntos e atentos, percebemos que há muitas personagens à nossa volta, criámos uma ideia e conseguimos criar uma narrativa que é marcada por um gosto muito eclético. Em “Panoramix” percebe-se que ouvimos bandas desde os Beatles, transe psicadélico ou bandas contemporâneas, mas também Rodrigo Leão e uma banda do norte do Mali. Dissecamos muito o que consideramos ser música boa e verdadeira e é essa que procuramos fazer e reproduzir sendo fiéis à nossa própria história. Se analisares esteticamente o que fazemos, é difícil enfiares-nos na gaveta do psicadélico ou da world music, por isso, decidimos criar o nosso próprio estilo [risos]. “Panoramix” é uma confluência de uma série de histórias pessoais que vivemos juntos e tem o objetivo de ser uma expressão que nos ajude a curar o que nos magoou e ajude a celebrar o que nos fez felizes. É uma expressão pura, sem quaisquer restrições. Aqui dentro só funcionamos se nos sentirmos livres para fazermos o que entendermos. Sendo nós músicos com muita escola e experiência, a coisa funciona; é fácil compor e gravar.

DA – Agora é que me vai mesmo saber bem ouvir o disco todo… Qual é o conceito dos vossos concertos? Tendo sido a atuação no MAAT acompanhada de videomapping, o que se passa em palco?
Nuno Canina – Temos a sorte de ir aumentando a nossa família e conseguimos transportar o nosso ambiente para outras pessoas que também gostam de se expressar livremente umas com as outras, por isso, temos a sorte de contar com a ajuda do Diogo Grilo no videomapping. Fizemos isso no MAAT mas queremos transportar para outros palcos. Basicamente, o videomapping é transpor o que fazemos na música para uma imagética própria, muito nossa, para dar mais profundidade ao nosso espetáculo. Temos histórias para contar, músicas para tocar e imagens que vão marcar as pessoas de maneira diferente. Fomos um bocado ambiciosos mas estamos contentes, acho que criámos um espetáculo muito bonito, convido-te a vires ver brevemente. [risos]

DA – Os espetáculos de videomapping que tenho visto são muito adaptados às salas, aos monumentos e aos espaços em que estão a ser exibidos. É o mesmo no vosso caso ou não? O vosso espetáculo é adaptado a cada espaço onde atuam?
PR – Tivemos a sorte de atuar na sala dos geradores. Esta sala tem três janelas com cerca de 12 metros de altura que foram escolhidas para representar o icónico do Museu da Eletricidade – eram as três janelas da sala dos geradores. Para esse espetáculo em concreto, o primeiro, as projeções estavam feitas especificamente nas janelas, ou seja, as pessoas tinham a perceção que estavam numa nave e que aquelas três janelas eram a vista possível para o exterior que também modelámos para criar uma perceção sensorial que fosse além da música que estávamos a transmitir. Isto implicou passar o conceito para esta equipa que percebeu perfeitamente quais os nossos valores e o que queremos exprimir com a música, adaptaram-nos em vídeo. O público tinha a sensação de estar debaixo de água e assim foi decorrendo… Nós temos o cuidado de gravar muito a nossa vida: experiências, viagens, mandalas, cornucópias… e a equipa conseguiu criar uma ilustração e momentos verdadeiramente excecionais, principalmente porque somos uma banda pequena que, apesar das dificuldades, lá foi andando. Depois do espetáculo, ficamos impressionados com o que conseguimos fazer que só foi possível com a colaboração de toda a gente e com essa vontade de nos exprimirmos livremente sem egos “metidos ao barulho”. Esta foi a adaptação para a Central Tejo. na semana passada fomos tocar ao Musicbox, em Lisboa, e, obviamente que teve de haver uma adaptação até nos próprios conteúdos. As luas mudam, as pessoas mudam, as disposições mudam, os tipos de público mudam e o nosso objetivo não é fazer um espetáculo igual para todo o lado, não acreditamos que isso vá funcionar. Temos que ter a sensibilidade de onde estamos, o que se está a passar na sociedade, que dia do mês é ou como está a lua… nós damos imensa importância a isso! [risos]

DA – É muito importante, tem muita influência em tudo… [risos]
PR 
– Sim [risos]. E até consultamos o “Borda d’Água” para sabermos a quantas andamos. Há sempre uma preocupação grande em adaptarmos o espetáculo ao sítio onde vamos tocar, ou seja, não podemos apenas ensaiar e quando chegar o dia reproduzir o ensaio. Gostamos de ir aos sítios analisar os recursos de que dispóem e trabalhar em equipa para fazer qualquer coisa realmente especial para determinada noite. Nas nossas cabeças já estão ideias mirabolantes para adaptarmos as projeções aos concertos que aí vêm. Esperamos conseguir fazer isso.

DA – Alguns desses concertos de que falas estão previstos para breve?
PR – Sim. Dia 28 vamos tocar em Leiria, no Texas Bar. Dia 29 vamos estar na Casa da Cultura, em Setúbal, e no dia 6 de maio em Évora.

DA – Há algum artista português que vos tenha marcado de forma particular neste vosso percurso profissional?
NC – Vários artistas da nossa geração. Sentimos que, com os Golpes, também tivemos uma certa responsabilidade de trazer de volta as canções em português porque vínhamos dos anos 90 em que se renovou tudo o que era português, tudo o que eram símbolos da expressão do português. Nessa altura toda a gente gostava dos Silence 4 porque cantavam em inglês e não soavam a nada nosso, pareciam vindos de fora. Por isso, todas as bandas que nessa altura tiveram a coragem de fazer música em língua portuguesa nos fascinam muito. Esta era uma conversa que duraria horas [risos] porque são muitas as pessoas pelas quais temos carinho.
PR – Quero completar com a minha lista. Realmente nós vivemos esse período da música portuguesa que teve ali o seu pico em 2010 com as bandas todas de que o Canina falava, o Samuel Úria, os Pontos Negros, o B Fachada, os Feromona, e de alguma maneira, passados estes anos todos, sentimos que muitas bandas marcaram o caminho a seguir pela música portuguesa porque, imediatamente a seguir, deu-se um boom de bandas portuguesas, muitas das quais em que estivemos envolvidos como os Capitão Fausto, por exemplo, que, na altura, me convidaram para produzir o primeiro disco deles. Sentimos que fizemos parte de um movimento que abriu uma nova estrada na música portuguesa mas no nosso exercício de composição posso dizer-te que Ary dos Santos foi uma lírica muito estudada, bem como a do Fausto, a do José Mário Branco, do Zeca Afonso, do Sérgio Godinho e a dos Madredeus pós-Rodrigo Leão tiveram uma influência muito grande em nós.

DA – Qual é, para vocês, o grande desafio para este ano?
PR – É uma maluqueira [risos]. Gostávamos de gravar mais umas quantas canções este ano e preparar já o próximo disco porque até já temos maquetas. Não sabemos como isso vai funcionar, porque estamos agora a fazer a promoção do primeiro, por isso queremos é tocar, garantir que cada espetáculo tenha a máxima qualidade possível com ou sem recursos. Interessa-nos viajar pelo país, conhecer pessoas e perceber a perspetiva do país real quando vamos aos sítios. Perceber a sede de cultura que as pessoas têm, que é uma realidade ainda bastante grave em Portugal; ainda há muita vontade das populações receberem coisas diferentes, as pessoas interessam-se. Este ano o grande objetivo é esse: aumentar a família de fãs e fazer o máximo possível com a melhor qualidade, o que implica não fazer tudo e mais alguma coisa, porque a nossa vida também já é diferente, temos outras responsabilidades e queremos fazer coisas onde sabemos que, investindo boa energia, vamos receber de volta boa energia das pessoas e, de alguma maneira, gostávamos de inspirar as pessoas a fazerem coisas com verdade e amor.

Daniela Azevedo

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