Daniela Ricardo sobre “Cozinhar com Amor”: «É exequível para todos, seja qual for o nosso papel social»

Cozinhar com Amor é o mais recente livro de Daniela Ricardo

Depois da Páscoa, já sabemos como corre a semana… a história repete-se, e ainda bem, mas andamos uns dias sem poder ver doces e chocolates pela frente, além de sentirmos um enorme peso na consciência, verdade?

Se pensarmos bem, a Páscoa também é uma excelente oportunidade para recomeçarmos, corrigirmos alguns erros alimentares e, acima de tudo, tomar novas resoluções rumo a uma alimentação mais equilibrada e hábitos de vida mais saudáveis. Neste contexto, e depois de já aqui ter partilhado bons hábitos no que toca à prática de exercício físico, pareceu-me uma boa opção uma tarde de conversa com a Daniela Ricardo, autora dos livros “Viagens da Comida Saudável” e “Cozinhar com Amor”, no qual mais se centrou a nossa atenção.

Era enfermeira no Instituto Português de Oncologia do Porto, quando começou a praticar yoga e, ao mesmo tempo, a tirar o curso de shiatsu, Daniela Ricardo tornou-se vegetariana. Com o intuito de conseguir um organismo mais “limpo”, aumentou o consumo de legumes, introduziu algas, leguminosas e frutos secos na sua dieta, à medida que também reduzia o consumo da carne e do peixe. Seguiu-se a cozinha macrobiótica.

Há quatro anos, com o marido, Luís Baião, fundador do projeto Zen Family que organiza grandes “viagens e retiros com alma” por todo o mundo, fez-se à estrada e muito do que tem aprendido foi abordado nesta conversa.

Daniela Ricardo e Daniela Azevedo no lançamento do livro "Cozinhar com Amor"
Daniela Ricardo e Daniela Azevedo no lançamento do livro “Cozinhar com Amor”

Daniela Azevedo – Daniela, estás a lançar já o teu segundo livro, “Cozinhar com Amor”. De que se trata?
Daniela Ricardo – “Cozinhar com Amor” é um livro que pretende mostrar que o ato de comer é mais do que ingerir nutrientes, embora estes também sejam contemplados. Comer, assim como cozinhar, são atos de amor. Isto porque quando nos alimentamos, seja por que via for, e existem várias que estão explicadas no livro, tudo o que ingerimos vai fazer parte de nós de alguma forma; vai alimentar as nossas células, construir o nosso corpo, alterar a nossa vibração e por aí fora. Logo, o que comemos é o ato mais íntimo que temos connosco próprios. Assim sendo, o que comemos tem extrema importância e se nós gostamos de nós, como gostamos dos nossos filhos, vamos cozinhar com Amor.

DA – Portanto, quer este, quer o primeiro livro, “Viagens da Vida Saudável”, são mais do que o comum livro de receitas, verdade?
DR – Verdade. Ambos os livros contêm muitas receitas saudáveis e fora do comum, embora sempre com ingredientes muito fáceis de encontrar, pois o foco deve o de uma alimentação mais local, sazonal e biológica. No meu primeiro livro, o “Viagens da Comida Saudável”, a inspiração foram as viagens que realizo pelo mundo, com a Zen Family. Nele quero mostrar e inspirar novos hábitos de vida e uma alimentação consciente e natural, com sabores de destinos exóticos, como a Índia, o Nepal, o Peru, entre outros, utilizando sempre produtos locais e sazonais, fáceis de adquirir. Com o “Cozinhar com Amor”, apesar do foco ser a alimentação consciente e natural, o que quis foi mostrar que é exequível para todos, seja qual for o papel social que desempenhamos. Assim, convidei vários amigos que partilham da minha visão de vida e de alimentação. Os amigos que convidei para participarem neste livro foram a Fátima Lopes, porque se preocupa com a alimentação e hábitos de vida saudáveis, pretendendo que esta seja sempre o mais natural e equilibrada possível mesmo quando se tem uma vida super agitada como acontece no mundo da televisão. Também a Geninha Varatojo, que mudou os seus hábitos há muitos anos, fazendo disso o seu modo de vida e até de subsistência enquanto criou quatro filhos. Também convidei a Rute Caldeira que conseguiu autênticos milagres através da sua “Dieta Espiritual” e que consolidou e conseguiu os resultados que faltavam após ter feito uma consulta comigo. Ainda convidei o meu marido, Luís Baião, por ter assimilado os conhecimentos que adquiriu através da macrobiótica para se curar de uma doença oncológica e os conseguir integrar no seu dia-a-dia mesmo quando está em viagem. Temos o Pedro Norton de Matos, que depois de uma vida empresarial intensa teve uma epifania, como ele mesmo descreve, e mudou os seus hábitos. Finalmente, convidei o Alexandre Gama, um especialista na área do Feng Shui que nos mostrar que esta disciplina não se aplica apenas à casa, mas que se pode aplicar a todas as áreas da nossa vida, incluindo à da alimentação, pois tudo está ligado ao ciclos da natureza. Além de tudo isto´, e que é imenso, temos dicas de como fazer compras, como organizar a cozinha, como tornar o dia-a-dia mais fácil…

DA – Que tipo de cuidados devemos ter quando vamos comprar alimentos?
DR – Eu acho que um dos cuidados principais é atender à qualidade do alimento. Preferir sempre que possível produtos que sejam biológicos e com o mínimo de processamento possível. Quando compramos produtos já processados, é importante ler os rótulos e perceber o que estamos a comprar. No livro “Cozinhar com Amor” dou algumas dicas a esse respeito.

DA – E quando se está, por exemplo, em África ou na Ásia, como é que podemos fazer para continuar a manter a alimentação saudável e segura?
DR – Essas são as dicas que o Luís Baião nos dá no livro. Para manter uma alimentação saudável é continuar a escolher produtos pouco processados, locais e sazonais. A segurança depende do local onde estamos. Eu, por exemplo, nos primeiros dias só como alimentos cozinhados, para me ambientar e depois vou abrindo o espectro. Conhecer bem os locais e os hábitos de higiene é uma boa forma de escolha e de manutenção de uma alimentação segura, que é o que acontece nas viagens da Zen Family. As desordens alimentares em viagem podem ser minimizadas se nos protegermos e mantivermos hábitos que contribuam para o aumento da nossa imunidade.

DA – E pelo meio as tuas comidas também se dão bem com louça orgânica. Fala-me um pouco sobre este teu projeto “aBiofamily by Barru”.
DR – Este projeto da louça orgânica surgiu porque não nos fazia sentido, a mim e ao Luís Baião, termos a preocupação de comer orgânico e escolher criteriosamente o alimento e não ter preocupação com o recipiente onde íamos comer. A mensagem tem de ser completa. Comes orgânico, ou biológico, porque é a melhor escolha para o teu corpo e para o planeta e onde comes também deve ser uma boa escolha para ambos. Para o corpo, porque não passa resíduos químicos, para o planeta porque não o polui, é reutilizável vezes sem conta, reduzindo assim o lixo. Além desta preocupação, quisemos que o resultado final desta louça orgânica fosse simplesmente fantástico. Aí, aparece a Cristina Valente, uma amiga nossa com a paixão pela olaria e pelo recuperar de tradições e já com uma vertente muito ligada ao que nós queríamos. Ela já tinha a Barru, nós a vontade, juntámos o útil ao agradável e desenvolvemos esta coleção de louça, “aBiofamily by Barru”, 100 % orgânica e artesanal, inspirada nas viagens que faço pelo mundo. A coleção “Viagens – aBiofamily by Barru” é, com certeza, a primeira de muitas, pois são inúmeras as ideias que me passam pela cabeça.

DA – Em que outros projetos e atividades estás envolvida?
DR – O projeto aBiofamily, que é o meu projeto ligado à alimentação consciente e natural tem em si várias atividades associadas, como as consultas de orientação alimentar, os workshops, as aulas de culinária individuais, as palestras, os retiros na Casa dos Sonhos e eventos que a Zen Family organiza e nos quais eu normalmente estou presente para cuidar da alimentação. As viagens também são algo que está muito presente na minha vida e que me liga à Zen Family, da qual o meu marido é mentor e como guia de viagens há mais de 20 anos. Nestas viagens em que participo dou sempre o meu contributo na área alimentar, fazendo escolhas conscientes e naturais para que comer seja um prazer tanto para o palato, quanto para o corpo. Faço também pequenas palestras sobre vários temas acerca da alimentação e tento ser o elo entre a cultura e a gastronomia. Perceber o que comemos e porque comemos é muito interessante.

DA – Foste enfermeira durante 20 anos no IPO do Porto. O que é que te levou a mudar?
DR – A razão principal foi estar a deixar de ter tempo para mim e estar a perder qualidade de vida, por estar sempre dividida entre dois mundos tão diferentes e ambos muito absorventes. A outra razão foi querer trabalhar na prevenção e contribuir para a adoção de hábitos de vida saudáveis que conduzam a mais e melhor saúde. Prevenir danos em vez de controlar danos, entendendo que as doenças são danos no nossos corpo. Eu acho que todos nós temos responsabilidades nos danos que surgem no nosso corpo, como tal podemos ter um papel ativo nessa prevenção. E prevenir é ter hábitos saudáveis, para evitar que os danos apareçam.

DA – Na tua opinião, porque é que tanta gente vive atualmente nesta luta com o próprio corpo e a tentar emagrecer?
DR – Na minha opinião essa luta existe porque não estão a comer de acordo com as suas necessidades, com a sua condição e constituição física. Estamos todos sempre a tentar seguir modas, a dieta milagrosa e a tentar obter resultados rápidos. Isso nunca é exequível a longo prazo e depois voltam ao mesmo. O ideal é ter hábitos de vida saudáveis e sustentáveis que contribuem para o bem-estar físico e consequentemente obter a figura que tentam obter. O emagrecer deve ser uma consequência, não um objetivo.

DA – Qual é a diferença entre biológico, macrobiótico, orgânico e vegetariano?
DR – Biológico e orgânico para mim são sinónimos e ambos significam, em termos alimentares, isenção ou o mínimo de químicos e pesticidas. São termos que denominam a qualidade do alimento ou do produto. Macrobiótico e vegetariano, não são a mesma coisa, mas podemos ser vegetarianos e macrobióticos ao mesmo tempo. Vegetariano é a denominação para pessoas que não ingerem produtos animais, ou como o meu professor de Yoga dizia, não ingerem “bicho morto”, sendo este o critério da escolha. Macrobiótico, em termos de alimentação, é comer segundo a sua condição física, constituição, idade e localização geográfica, preferindo alimentos o menos processados possíveis e com bastante ênfase em cereais integrais, leguminosas, frutas e vegetais assim como sementes, de preferência locais e sazonais. Não há nenhum alimento proibido, mas a frequência e quantidade são diferentes das que se praticam hoje em dia. No entanto, existem alimentos que são opcionais, pelo que se pode ser macrobiótico e vegetariano ao mesmo tempo e ser adepto do orgânico ou biológico.

DA – Somos realmente o que comemos?
DR – Somos realmente o que comemos. Como explico no livro, comer é o ato mais íntimo que temos connosco próprios. Tudo o que ingerimos, seja por que via for, vai fazer parte de nós, alimentando ou construindo o nosso corpo. O que somos em termos orgânicos e o que comemos não são dissociáveis.

DA – Um conselho de vida que nos possas deixar…
DR – O melhor conselho é: alimentem-se com Amor, seja por que via for. Alimentem-se de uma forma consciente e natural, pois nós somos responsáveis pelo nosso corpo assim como pelo que acontece à nossa volta. Façam boas escolhas. Porque tudo o que escolhemos significa que votamos positivamente nessa escolha e em tudo o que ela acarreta. Tudo o que fazemos, tudo o que escolhemos conta. Vivam conscientes!

 

Livro Cozinhar com Amor
Livro “Cozinhar com Amor”

Daniela Azevedo

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *