Ruben Portinha sobre o álbum de estreia: «Não há maquilhagens, nem afinadores automáticos»

Ruben Portinha lançou no final de 2017 o álbum de estreia "Realidade"

Ruben Portinha lançou no final do ano passado o primeiro álbum de originais, “Realidade”. Com uma carreira que já leva uma década de palcos, o cantor decidiu, aos 30 anos, registar em disco 13 canções que são o resultado das diversas influências musicais que foi absorvendo ao longo da sua vida.

Do rock ao fado, do blues à soul, do funk à bossa nova, o resultado final, se quisermos rotular o álbum como um todo, é uma pop romântica toda cantada na língua portuguesa. Produzido pelo autor, o álbum contou com as participações de Carlos Lopes, ao acordeão, e Fernando Silva, na guitarra portuguesa, e ainda com as vozes dos DMK e Cherry. A cantora de ‘London Express’ faz coim ele o dueto do single de apresentação, ‘Gostei De Te Ver’, disponível mais abaixo.

Há 11 anos estreou-se num palco em Sintra mas foi ainda na escola secundária que conheceu um amigo que lhe ensinou os primeiros acordes de guitarra, e um outro com quem iniciou os primeiros rascunhos. Em 2008, lançou por mão própria uma primeira maquete composta por dez originais.

Em 2011, com um espetáculo de originais em nome próprio e outro com os Cherry Jam, teve a oportunidade de tocar no belo e mítico cenário da Baía de Cascais, no decorrer da Semana da Juventude. Três anos depois, Ruben Portinha integrou o programa “A Nossa Voz”, uma iniciativa do Instituto Português do Desporto e Juventude em parceria com o Programa Escolhas e a Associação Mais Cidadania. Deste projeto, nasceu uma coletânea editada em CD, composta por 11 temas criados pelos jovens participantes.

Por entre scones e chá quentes, como os finais de tarde de inverno em Lisboa exigem, toda uma tarde de conversa se passou…

Ruben Portinha num lanche em tarde de inverno para DanielaPress
Ruben Portinha num lanche em tarde de inverno para DanielaPress

Daniela Azevedo – Como é que descreverias este teu álbum de estreia, “Realidade”?
Ruben Portinha – Acima de tudo, é um álbum verdadeiro, autêntico. Isso tem a ver com a forma como foi produzido, com o resultado final e o tipo de som que tem. Não há maquilhagens, nem afinadores automáticos, nem instrumentos tocados por um computador. Obviamente que há sempre um trabalho de estúdio que tem de ser feito, mas neste caso não retirou a autenticidade às músicas. Além disso, as histórias são muito próximas daquilo que todos nós vivemos ao longo da nossa existência; umas aconteceram comigo, outras não, mas podem vir a acontecer. Comigo ou com qualquer pessoa. Não posso deixar de agradecer ao Carlos Lopes (que gravou e coproduziu o disco), ao Nuno Barreto, ao Ricardo Duarte e ao João Coelho, que completaram a formação em estúdio. Agradeço também aos DMK, à Cherry e ao Fernando Silva, que aceitaram colaborar connosco.

DA – O single de apresentação chama-se ‘Gostei De Te Ver’ e é um dueto com a Cherry. Como é que a conheceste e como surgiu a ideia de fazer este dueto?
RP – Conheço a Cherry há cerca de nove anos. Já trabalhámos juntos muitas vezes. Quando fiz esta música, eu e ela tínhamos um projeto musical em comum com o Sérgio Trigo, e a primeira gravação deste tema foi feita nesse contexto. Ou seja, a voz dela está lá desde o princípio, por isso fez-me todo o sentido convidá-la para cantar no disco. Por outro lado, o ‘Gostei De Te Ver’ é o epicentro deste álbum. É o tema que marca uma transformação da minha forma de compor, talvez um pouco mais madura e, sem dúvida, menos focada nas minhas vivências.

DA – E tens no álbum também um fado. É uma responsabilidade acrescida acrescentar um fado ao alinhamento do disco?
RP – Costumo dizer por brincadeira que é uma espécie de fado. É sobretudo uma canção, mas claro que o fado está lá, porque é um género musical que me diz muito e com o qual também fui crescendo. Achei que a homenagem que queria fazer a Lisboa se entrecruzaria na perfeição com estas sonoridades, embora não me considere, nem um pouco mais ou menos, um exímio intérprete, músico ou autor de fado. A responsabilidade que senti ao fazer esta canção foi em tudo semelhante à que senti ao criar os outros temas. Procurei essencialmente que o texto ficasse bem escrito e tivesse conteúdo. Não posso deixar de referir que a participação do Fernando Silva, um grande mestre da guitarra portuguesa, veio acrescentar muita qualidade ao resultado final e, por isso, aqui fica o meu abraço de agradecimento.

DA – As tuas músicas, ouço-as como românticas ou voltadas para as questões sentimentais. Como é que as tuas experiências pessoais têm influenciado este teu lado romântico?
RP – Embora não tenha sido, de todo, meu objetivo fazer deste um álbum romântico, não posso deixar de reconhecer que boa parte dos temas falam de amor. Na verdade, este é um dos assuntos mais abordados na música popular, talvez por ser também um dos sentimentos mais inerentes ao ser humano. No fundo, tudo isto tem muito a ver com as minhas influências musicais, e com o facto de achar que é bom falar de amor, mas não sempre da mesma forma e com a mesma fórmula. Por exemplo, a faixa nove, que se chama ‘Desconstrução das Canções de Amor’, é uma canção que procura inverter as coisas e, falando de amor à mesma, pega nos clichés e vira-os ao contrário. O refrão diz «não te dou Lisboa, nem Londres, nem Macau; dou-te o meu amor e já não é nada mau». E depois, as tais histórias de abandono, erro, admiração, medo e encontros a dois que fazem parte da vida de todos nós.

DA – Como é que aprendeste a tocar guitarra? Tocas mais algum instrumento?
RP – Os primeiros acordes aprendi na escola secundária, com o meu amigo Rui Benfeitas, que na altura estava a ter aulas de guitarra. Como sempre gostei muito de música e do instrumento em si, quis aprender com ele. Daí para a frente, tenho sido um autodidata, mas tenho aprendido muito com outros músicos e amigos que se têm cruzado comigo. E, claro, não posso esquecer as cinco ou seis aulas que tive em 2015, com o extraordinário Carlos Gutkin. Parece pouco, mas aprendi tanto com ele que não posso deixar de lhe agradecer. Além da guitarra, toco percussão e dou uns toques no baixo, e a célebre flauta de bisel, que aprendemos a tocar na escola primária!

DA – Do ponto de vista da nossa “realidade”, hoje em dia, vemos muitas catástrofes, muitos problemas, guerras e injustiças no geral. Pergunto-te se tens uma causa com que te identifiques, pela qual lutes.
RP – Identifico-me com a honestidade, com a humildade, com o respeito, com o bom senso e com o humanismo. Acho que a partir daqui podemos agarrar em todas as causas que quisermos e mudar as coisas para melhor. Vivemos num mundo em que cada vez mais pessoas se fecham em bolhas de egoísmo e superficialidades, em que cada vez mais pessoas não hesitam em esmagar os outros para chegar onde querem, em que o dinheiro e o poder são armas de arremesso para atingir os fins. Os resultados estão à vista. Não sei se ainda vamos a tempo, mas é nosso dever tentar que as coisas se invertam.

DA – Sendo tu portador de deficiência visual, já tiveste que lutar contra algum estigma no mundo da música?
RP – Sim, já. Mas antes de pormenorizar essa questão, quero dizer que esse tipo de situações acontecem essencialmente com promotores, organizadores e outros agentes. Entre colegas, nem por isso. Eu pelo menos não me recordo de ter sentido algo desse género com os meus pares; pelo contrário. Mas de facto uma vez aconteceu-me ir tocar a um determinado sítio e, no final, a dona do espaço disse-me que não tinha gostado, sobretudo porque eu não mantinha contacto visual com o público. Houve outros pequenos episódios, mas este foi o que mais me marcou. Seja como for, são coisas às quais temos de nos ir habituando, não obstante a luta permanente para tentar reverter mentalidades.

DA – Já te vi, no jantar de aniversário de uma amiga comum, levares a guitarra e começares a cantar. Isso acontece-te muito? Pedem-te para levares a guitarra e cantares umas notas nas festas de amigos?
RP – Nem por isso, mas por vezes lá calha. Nesse dia, o objetivo era fazer uma surpresa muito específica à aniversariante. Pediram-me a mim e à Inês Martins que o fizéssemos, e fizemo-lo com todo o gosto.

DA – Onde é que vais atuar agora em breve?
RP – Vamos estar na FNAC do Almada Fórum a 4 de março, a partir das 17h00, e no dia 5 vou fazer uma apresentação acústica do álbum em Óbidos, com a minha guitarra e as vozes e percussões da Inês Martins. Também já estamos a aquecer os motores para 11 de maio, dia em que teremos o privilégio de tocar no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. Vai ser uma noite com vários convidados e muitas surpresas à mistura. De resto, estamos a fazer um intenso trabalho de contacto com autarquias e organizadores de festivais de música, para conseguirmos preencher o mais possível a agenda para 2018.

 

 

Daniela Azevedo

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