Tecnologia à portuguesa: «Portugal tem imenso espaço para crescer», diz Jorge Pereira, da Infosistema

Startups estão a crescer em Portugal

No início do mês de fevereiro o jornalista da Bloomberg Edward Robinson escreveu um artigo, com base numa entrevista feita a dois portugueses, na qual compara o Portugal de hoje com o sempre muito enaltecido Portugal dos Descobrimentos.

A história começa por relatar a arriscada mas bem sucedida aventura de Jaime Jorge que, depois de recusar um bom emprego na Google londrina, decide fundar, com João Caxaria, a empresa de monitorização de código, Codacy. Este sucesso com a marca das quinas merece relevo aos olhos de um Eddie que nos descreve como uma “small nation”, a lidar com questões problemáticas na banca e vítima de uma economia que, nas leituras mais otimistas, está “estagnada”. Ainda assim é com surpresa que o artigo atesta a desenvoltura portuguesa enquanto berço de startups, a que não é alheia a realização da Web Summit em território nacional até 2020. A computação em nuvem e o software livre mostram que, tal como o Jaime o João, muitos outros empreendedores portugueses podem levar à cena o seu modelo de negócios, com capacidade de rápido crescimento e razoável geração de lucros, num ambiente tão instável como é o da economia global atual.

O Portugal dos Descobrimentos lançou navios ao mar e agora lança startups
O Portugal dos Descobrimentos lançou navios ao mar e agora lança startups

Edward Robinson encara com alguma estranheza o sucesso de Portugal nesta matéria, quando Londres continua a receber, segundo dados da Bloomberg, metade do investimento europeu em tecnologia financeira. Ora é aqui que reside outro dos pontos fundamentais em que assenta a peça jornalística sobre o Portugal e, mais concretamente, a Europa das startups. Enquanto o Portugal do século XVII nos levou além-fronteiras, poderá o Brexit alargar as fronteiras do empreendedorismo, atualmente tão circunscritas ao território do Reino Unido? Será o Brexit o catalisador da diminuição do GAP entre os vários países europeus que acolhem startups?

 

Jorge Pereira - CEO da Infosistema
Jorge Pereira – CEO da Infosistema

Estas são algumas das questões para as quais o eng.º Jorge Pereira procurou dar alguns esclarecimentos, enquanto Co-Founder & CEO da Infosistema.

Daniela Azevedo – O ambiente tecnológico nacional, nomeadamente as startups, apesar do grande impacto que está a ter ainda é pequeno. Acha que temos espaço para crescer ou estaremos a beneficiar da chamada “sorte de principiante”?
Jorge Pereira – Portugal tem imenso espaço para crescer em termos de investimentos de natureza tecnológica e com grande potencial. Somos um país de enorme centralidade numa escala global e com excelentes engenheiros que conseguem comunicar em diferentes línguas. Estas características, quando conjugadas, são um fortíssimo diferenciador que devemos promover.

DA – É inevitável considerar-se que toda esta curiosidade à volta das tecnologias em português foi, em boa parte, desencadeada pela Web Summit. Concorda? Que balanço faz da primeira edição da cimeira tecnológica em Portugal?
JP – A Web Summit foi já uma consequência de anteriores acontecimentos e de uma grande visibilidade que diversas startup portuguesas ganharam internacionalmente. Muitos investidores internacionais, em particular ingleses, já observam e investem em empresas portuguesas desde alguns anos a esta parte. Este evento foi, no entanto, muito importante para acelerar e multiplicar a visibilidade internacional de Portugal e dos empreendedores Portugueses, mas também dos recursos que Portugal tem para disponibilizar a empresas e empreendedores de outras geografias de forma a captar maior investimento.

DA – Sendo um entusiasta, desde cedo, das compras online, como acha que tem evoluído este segmento em Portugal? As questões de segurança têm vindo a ser mais acauteladas por parte das empresas?
JP – Sou de facto um entusiasta e utilizador frequente. As compras online são mais seguras do que as tradicionais pois permitem associar seguros diversos que protegem o consumidor e garantem o registo da transação. No espaço da segurança muito tem igualmente acontecido, quer na vertente bancária que criou produtos específicos para facilitar as operações online de forma segura, quer com novos agentes como a Paypal que incluem no seu serviço a proteção do consumidor, permitindo a devolução do pagamento efetuado em caso de reclamação.

DA – Lendo as muitas críticas que têm sido feitas a Portugal e até neste artigo da Bloomberg parece que temos tudo para sermos um país bem sucedido mas continuamos a ter uma taxa de desemprego bastante elevada e uma saúde financeira frágil. O que nos falta?
JP – Falta-nos uma estratégia nacional, um rumo bem definido a médio prazo e uma governação sem retrocessos que a permita executar. Falta-nos melhor educação e formação na população ativa em particular em matérias de gestão e marketing. Falta uma gestão profissional no tecido empresarial industrial que mantém ainda em grande escala uma gestão familiar e deficitária. Precisamos de transformar e melhorar competências na nossa massa humana produtiva para assegurar a melhoria económica generalizada, mas acredito nos portugueses, na sua resiliência e na sua capacidade de fazer acontecer.

DA – Poderá, no seu entender, o Brexit desacelerar o investimento em Londres?
JP – O Brexit é um acontecimento externo que já afetou muito o investimento em Londres e que nos pode impactar bastante. Pode ser um fator negativo para algumas empresas portuguesas como pode igualmente ser positivo para outras. A deslocalização de operações para fora de Londres pode abrir oportunidades para Portugal se conseguirmos ganhar algumas delas. O mundo está em constante mudança e esta é a realidade que os gestores devem assumir. Devemos transformar as empresas e as organizações para se adequarem a um cenário de mudança constante e assim conseguirem reagir atempadamente a mudanças estruturais internas ou externas, mas acima de tudo que consigam incorporar inovação e simplificação nos seus processos produtivos para ganharem competitividade.

Daniela Azevedo

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