Luca Argel sobre o álbum novo: «Foi aqui em Portugal que o meu interesse pelo samba cresceu»

Luca Argel tem álbum novo - Bandeira

Com a chegada da primavera apetece ir à descoberta de novos sons, por isso, a visita de hoje é a um carioca de gema mas que está a viver no Porto desde 2012: Luca Argel, vocalista dos Samba Sem Fronteiras, que lançou no início deste mês um novo álbum a solo intitulado “Bandeira”.

O disco tem uma dezenas de canções catitas, com um sambinha pelo meio, mas no qual o cantautor e apologista das coisas simples nos leva da “falsa simplicidade do samba” até a um “tributo à ourivesaria dos seus compositores mais brilhantes: Noel, Nelson, Paulinho”. Com o primeiro samba registado na história da música a completar 100 anos, ficamos já com a primeira amostra do “Bandeira”. Mais abaixo podemos ouvir ‘Estar o Ó’.

Depois do concerto de apresentação, há outros previstos para os próximos dias em Portugal. Já neste sábado, dia 25, o artista toca na Casa do Povo de Ovar, no âmbito do festival Um ao Molhe, e no dia 31 é a vez da Casa da Música, no Porto. No 1.º de abril (e não é mentira), o concerto tem lugar n’A Barraca, em Lisboa, e a 8 de abril em Famalicão.

Daniela Azevedo – O teu segundo álbum, “Bandeira”, é sobre o quê?
Luca Argel – É um álbum de sambas, sobre o samba. Na verdade, é um passeio ao redor das possibilidades líricas do samba, enquanto género de canção. “Bandeira” é uma palavra que pode significar muitas coisas, e é muitas vezes usada como sinónimo de algo em que a gente acredita, de um ideal. Eu acredito, por exemplo, na capacidade que o samba tem de catalisar uma infinidade de referências musicais e de abordar os assuntos mais diversos. Por isso, acredito também que ele deve ser pensando e ouvido, dentro e fora do Brasil, com a dignidade e complexidade que ele merece. O disco, nas entrelinhas, fala um pouco sobre isso.

DA – Segue a mesma linha do “Tipos Que Tendem Para o Silêncio”?
LA – Não, o “Bandeira” vai no sentido oposto. O “Tipos” é um disco de exploração musical mais “pura”, de procura de melodias, de sonoridades, onde, apesar de haver vozes, as palavras nunca entram na equação. “Bandeira” é o contrário. Os textos são o elemento principal do disco. Todo o resto só existe em função deles. Mas esta diferença não significa que eles não sejam, de alguma forma, relacionados… Gosto de pensar neles como duas pontas opostas de uma mesma linha, e que entre os dois há um enorme espaço cinzento ainda por ser explorado.

DA – Como correu o concerto de apresentação? Há novidades para o concerto de Lisboa?
LA – O concerto de lançamento no Porto correu maravilhosamente. Acho que estive à altura das canções, e o público reagiu muito bem. Corria o risco de ficar monótono, por ser apenas voz e guitarra, mas parece-me que o próprio conteúdo das músicas acaba sempre por guiar a atenção das pessoas, como se eu estivesse contando histórias (e por vezes estou), e a coisa flui. Quando me dou conta já passou uma hora de concerto e eu nem senti. Em Lisboa vai ser um pouco diferente, porque vou ter convidados para cantar uns temas comigo. Mas ainda que não tivesse, é sempre diferente. O hábito das rodas de samba ensinou-me a tocar sem alinhamento. Tenho uma lista de músicas, e vou decidindo o que tocar, e em que ordem, durante o próprio concerto. Por isso é raro fazer o mesmo alinhamento em dias diferentes.

DA – Fala-nos um pouco mais sobre a forma como também tu, apesar do teu registo calmo e sereno, és um homem do samba?
LA – Isso é curioso. Foi aqui em Portugal que o meu interesse pelo samba cresceu. Não que antes de vir morar aqui eu não gostasse de samba, muito pelo contrário, mas quando morava no Rio formar um grupo de samba nunca esteve nos meus planos. Aqui no Porto a gente começou um movimento pequeno, que foi lentamente se expandindo, popularizando, crescendo, e a gente crescendo junto com ele. Eu continuo não tendo uma personalidade muito parecida com a ideia que as pessoas têm do samba, como um género agitado, expansivo, aliciante. Mas é como eu já te disse: o samba consegue comportar características muito variadas dentro dele. Pense em Dorival Caymmi, por exemplo, que é a própria calma e serenidade em pessoa. Ou em João Gilberto, mínimo, silencioso. Ambos são genuinamente homens do samba, e dos melhores que há. Pode parecer contraditório, mas é isso aí, o samba é contraditório mesmo, faz parte da sua sofisticação, da sua complexidade dentro do emaranhado cultural brasileiro.

DA – Já alguma vez misturaste os teus livros e a música? Faz sentido esta mistura?
LA – Sempre. Os livros de poesia e as canções vêm do mesmo lugar da minha cabeça, eu é que depois as separo e decido o que é que vai para onde. E em 2013 eu já fiz uma confusão (propositada) entre os dois. Lancei uma coisa chamada “Livro de Reclamações”, que era a apresentação de 11 poemas que eu cantava, ou falava, acompanhado da guitarra, e de projeções de vídeos. Nunca tinha sido editado nem como livro, nem como disco, era um trabalho que estava a meio do caminho. Apenas este ano, a convite da miasoave, de Lisboa, é que vamos editá-lo como um disco, que vai sair acompanhado de um pequeno livro de poemas inéditos. Em resumo, quando se trata da distinção entre poesia e canção, meu objetivo é sempre confundir.

DA – O Porto é uma boa cidade para se compor? Quais os seus aspetos mais bonitos?
LA – Para mim é, sem dúvida. O Porto tem uma atmosfera cultural que pulsa. Apesar do tamanho modesto, há muita coisa interessante acontecendo, muito estímulo para quem produz. E também sinto que há uma recetividade boa por parte das pessoas por tudo o que seja programação cultural de qualidade, diferente daquilo que mais dá na rádio e na TV. Não interessa tanto o estilo, ou o que está na moda: se for autêntico, se estiver bem feito, há sempre gente que adere.

DA – Um recanto do Porto para se conhecer nesta primavera…
LA – Já moro aqui há quase cinco anos, mas estou sempre a descobrir sítios. O último foi o Parque de São Roque da Lameira. É ótimo. Fica longe da zona turística da cidade, então raramente está muito movimentado, especialmente em dias de semana. Tem um labirinto e tudo!

Daniela Azevedo

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