Blind 3, 2, 1… Zero em 2017

Blind Zero na Avenida dos Aliados, no Porto, na passagem de ano 2016-2017

Poucos dias antes de acabar o desditoso ano de 2016 decidi que devia reservar para esta altura umas mini-férias. Não gosto da celebração da passagem de ano. Não tenho a menor paciência para a obrigatoriedade de estar ululante nessa noite. Acho insuportáveis os guias dos improváveis looks para a dita noite. Algum das bloggers de moda realmente já se deu conta de que está um frio do catano a 31 de dezembro? Restaurantes, discotecas ou até casas alheias, há muitos anos que não me arrancam da minha pantufiária sala de estar.

Mas, lá está, se queres que seja diferente começa por fazer diferente e, portanto, num arrojo de “out of the box”, decidi aceitar o simpático convite dos Blind Zero para inaugurarmos o calendário na cidade que, para mim, tal como para Agustina Bessa Luís, «não é um lugar. É um sentimento»: o Porto.

A 30 de dezembro, o marketing da quadra venceu-me e mal podia esperar para me enfiar numa saia plissada e num top forrado das malucas lantejoulas que mudam de cor quando lhes passamos com a mão por cima. Tem mais de parvo que de giro mas sim, comprei um. E também uma sombra cheia de brilhantes. E uns botins cheios de brilhantes. E verniz com brilhantes. Tudo a que tinha direito ao fim de uns 20 anos a detestar a festa de passagem de ano.

Brilhantes e mais brilhantes para celebrar a chegada de 2017
Brilhantes e mais brilhantes para celebrar a chegada de 2017

A 31, pela fresquinha, em Vila Franca de Xira, entrei no comboio para o Porto. Apesar de, para não variar, o meu lugar estar ocupado, tudo me parecia perfeito – o sol, a carruagem, a minha leitura de viagem, os telefonemas dos melhores amigos mais confiantes que eu que 2017 é que “vai ser”. Tive tudo o que alguém pode desejar para preparar terreno para uma entrada triunfal num ano que, com muita força, quero que seja melhor. E ali estava eu: disposta a sorrir para todos. Seres Humanos ou não. O Douro emerge e a cada chegada ao Porto tenho a sensação que nunca é igual; é sempre melhor.

Sem querer, já que a estadia no Moov Hotel Porto Centro me fora oferecida, acabei por ficar numa das zonas da cidade onde já fui mais feliz: ali para os lados no Teatro Rivoli com passagem sempre de olhos esbugalhados pelo Café Majestic que o Pedro Abrunhosa apresentou ao país nos idos anos 90. O hotel é recuperado do antigo cinema Águia d’Ouro e, por isso mesmo, manteve a fachada e a temática do cinema que torna a estadia bem glamourosa mesmo não sendo um hotel de topo. Até a rececionista parecia estar com a mesma boa disposição que eu.

De uvas na pochete (não suporto passas) e com o meu melhor sorriso vestido, saí do hotel, já secretamente pomposa porque, lá está, toda uma brilhante indumentária teve de ficar escondida por debaixo de um sobretudo, e rumei à Avenida dos Aliados – o centro da festança. Na rua, o ambiente era acolhedor com gente calma, sem stresses citadinos, e com lojas de discos a “venderem” a sua música.

À chegada ao backstage na Avenida dos Aliados
À chegada ao backstage na Avenida dos Aliados

Pouco a pouco, começo a ouvir o som que vem do palco onde os Blind Zero já fazem sound check para umas dezenas de portuenses. Alguns talvez ainda não tenham percebido que aquilo é apenas um ensaio, tal é o entusiasmo com que aplaudem e devolvem os votos de bom ano novo. Do backstage, as luzes frenéticas e o denso fumo de efeito baralham as silhuetas dos homens que, à primeira vista, não se sabem a quem pertencem.

Em cima do palco com os Blind Zero na Avenida dos Aliados
Em cima do palco com os Blind Zero na Avenida dos Aliados

Está muito frio mas o calor humano e as músicas dos Blind Zero que conheço de trás para a frente fazem-no passar para segundo plano. Quando se está de acordo connosco próprios, pouco importa o que marca o mercúrio do termómetro. A menos que seja um febrão. Aí temos que estar de acordo connosco próprios numa fila de espera no hospital.

Grelha de backstage para a passagem de ano no Porto
Grelha de backstage para a passagem de ano no Porto

Pelas 20h00 já estamos no restaurante, no elegante NH Collection. Boa comida, convívio, doces e mais doces. «São os últimos que como este ano», digo em voz alta, com a solidez de quem sabe que está a dizer a coisa certa.

Rumando novamente aos Aliados, as luzes, gorros, cachecóis e garrafas de champanhe estão à vista. E que comece a festa.

Poucas bandas conseguiram convencer tão bem os portugueses das mais-valias do Porto como os Blind Zero. Poucas se arriscaram em mais de 20 anos de carreira em nome da música em que acreditam. Se são pop, se são rock, se são grunge, não importa. Goste-se mais ou menos, queira-se ou não, a história da música em Portugal já guardou um lugar para a banda que continua a arrastar muitos fãs atrás de si. Mesmo que esteja um frio que os próprios portuenses assinalam nos pés a bater e nas mãos nos bolsos. Muitos dos que ventilam comentários pouco simpáticos sobre a linha musical do grupo, aposto que nunca sentiram a emoção de fazerem uma passagem de ano ao som dos Blind Zero. Ou, tão pouco, se deram realmente tempo de qualidade para ouvirem as suas canções.

A meia-noite bateu e o fogo de artifício começou a riscar o céu do Porto. Bonito, colorido e com a duração perfeita para se evoluir da euforia à contemplação. Passei a meia-noite a fazer brindes e saúdes com indivíduos que não voltarei a ver. Abracei criaturas só pelo simples gozo de poder desejar e fazer algo bom. Constrangedor? Nem por isso, se nos reprogramarmos a contrariar tudo o que tínhamos concebido mentalmente sobre este tipo de festividade.

Fogo de artificio no Porto
Fogo de artificio no Porto

No Porto, hora e meia depois e com os Azeitonas em palco naquele que foi o último concerto com Miguel Araújo, não há arruaça desconfortável. Não há lixo desnecessário mas apenas, na maioria, os papelotes das explosões da meia-noite que hão-de persistir na bonita calçada portuguesa por mais uns dias.

Chegada ao hotel, percebo que ninguém pode realmente valorizar os seus 12 desejos de ano novo se não tiver tido um ano velho verdadeiramente pejado de monstros, fantasmas, muros e cinzentices. A felicidade que se deseja implica alguma dose de esforço e eu comecei o ano a contrariar a minha zona de conforto para ter uma bela surpresa. Só por esta excentricidade, aventura e arrojo (pelo menos para mim), devia estar isenta de tristezas para os próximos 465 dias.

Parabéns Blind Zero! Vocês dizem que estão mais calmos, que o rock que vos corre nas veias já não vos faz tensão alta mas continuam a fazer furinhos na argamassa dos mais reservados. Mesmo que não o saibam.

Daniela Azevedo

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