Marta Ren: «Gostava de ter vivido na altura da descoberta e não do dado adquirido»

Marta Ren, no festival Sons de Vez, fotografada por Sérgio Neto

“Stop, Look, Listen” é o álbum de estreia a solo de Marta Ren. O disco, que tem sido agraciado com as melhores reviews internacionais por parte da Radio 1, da RAI, da Radio 3 espanhola, do “Basic Soul Show”, de Simon Harris, ou do “Craig Charles Funk and Soul Show”, na BBC 6, revela-nos uma cantora de voz forte e segura, numa maturidade artística para a qual os muitos anos associada a nomes como os Sloppy Joe, Bombazinos ou os Movimento contribuíram. Curiosamente, foi um contrato com uma editora italiana, a Record Kicks, que parece ter-lhe aberto todas estas portas.

Marta Ren & The Groovelvets "Stop Look Listen"
Marta Ren & The Groovelvets “Stop Look Listen”

Há quem diga que este é o primeiro grande disco de música soul gravado em Portugal e, pelo que a artista descreveu nesta muito simpática pausa, que esteve para ser um almoço entre concertos e promoções, é bem capaz de ter sido o primeiro a recorrer a tantos e tão bons métodos para imprimir todo o peso da soul ao trabalho. Sim, a portuense Marta Ren consegue ser forte e doce ao mesmo tempo, não me perguntem como… Três anos a pensar e executar um disco só podiam resultar numa obra-prima.

São 13 as canções que compõem a edição nacional do álbum. São canções sentidas mas alegres. Dão-nos vontade de bisbilhotar uma qualquer “agenda da cidade” e partir à descoberta do próximo baile temático dos anos 60. E depois de “Stop, Look, Listen” a rodar nestas tardes já pós-mudança-de-hora, 13 passa a ser número de sorte enquanto já estão decoradas de fio a pavio ‘Summer’s Gone’, ‘2 Kinds of Men’ e  ‘I’m Not Your Regular Woman’.

Marta Ren, no festival Sons de Vez, fotografada por Sérgio Neto
Marta Ren, a 5 de março de 2016, no festival Sons de Vez, fotografada por Sérgio Neto

Daniela Azevedo – Foi há precisamente um mês [5 de março] que estreaste o teu álbum a solo no festival Sons de Vez, em Arcos de Valdevez, e depois disso já houve outros concertos no Porto, em Lisboa e até na Madeira. Como é que estão a correr estes primeiros espetáculos?
Marta Ren – Têm sido concertos fantásticos, maravilhosos. Em Arcos de Valdevez, do nosso lado, ao nível técnico, correu muito bem, mas a energia do público, especialmente, do Sons de Vez que tem pessoas de todas as faixas etárias, foi muito bom. Sabes que sendo um festival num auditório, para público sentado, foi muito bom ver que lá pela quarta música já estava tudo de pé, a curtir e a dançar. Eu queria que durante o tempo do concerto as pessoas se esquecessem dos problemas e das preocupações que tiveram no trabalho e se divertissem. E isso aconteceu.O que passou para o lado de cá foi tão bom que acabámos o concerto ainda com mais energia do que começámos.

DA – Já cantas em grupos há tantos anos… porque é que decidiste lançar agora um álbum em nome próprio?
MR – É o trajeto natural de um cantor que já tem uma certa experiência. É natural chegares à altura em que queres fazer um projeto em nome próprio. Eu gosto de trabalhar em banda e do conceito de banda; a única diferença é que agora posso gerir tudo mais à minha maneira.

DA – E quem são os Groovelvets que te acompanham agora?
MR – São o Sérgio Marques, no baixo, o Hugo Danin, na bateria, o Bruno Macedo, na guitarra, o Sérgio Alves, nos teclados, Manu Idhra, na percussão, o Paulo Gravato, no barítono, João Martins também no saxofone, o Rui Pedro Silva, no trompete, e o José Silva também, e o João Sêco, no trombone.

DA – Em “Stop Look Listen” as letras são da tua autoria. Como é que apresentarias o álbum?
MR – Mesmo nos projetos onde estive, nos Bombazinos e nos Sloppy Joe, por exemplo, as canções que eu cantava eram escritas por mim. Só assim é que eu sinto o que estou a cantar. É um disco de soul e funk clássico, com a sua base de inspiração nos anos dourados de 60 e 70. O disco foi todo feito obedecendo a essas regras; foi gravado ao vivo, só com material analógico, diretamente na mesa, com todas as pistas de cada instrumento a passarem em tempo real por um gravador de fita, ou seja, houve uma preocupação perfecionista com a parte da produção que esteve a cargo do disco. Estou muito satisfeita, não mudaria nada. Durou tanto tempo exatamente para eu poder dizer que estou satisfeita com tudo o que lá está! [risos].

DA – Que outras características do estilo vintage mais aprecias?
MR – Toda a parte estética e toda a música, dos diferentes estilos. O vintage, os anos 50, 60 e 70, têm a ver com a descoberta de tudo aquilo com que nós hoje nascemos e temos por adquirido. Gostava de ter vivido nessa altura, da descoberta e não do dado adquirido.

Marta Ren, no festival Sons de Vez, fotografada por Sérgio Neto
Marta Ren, no festival Sons de Vez, fotografada por Sérgio Neto

DA – E os discos antigamente ouviam-se de uma maneira muito diferente…
MR – Oh, claro, essa componente da música que eu e tu vivemos… a parte em que trocávamos cassetes com outros miúdos e juntávamo-nos para fazer isso, para ouvir música em conjunto. Havia quase uma competição entre nós para ver quem é que decorava a letra primeiro e depois andávamos anos e anos a cantar mal uma palavra, porque imitávamos o que nos parecia que ouvíamos… e depois percebíamos que não era aquilo [risos]. Tenho muita pena que se tenha perdido isso, de ouvirmos música em conjunto, era uma partilha muito importante. Acho que foi a única coisa em que a Internet não foi assim tão boa… deixou de haver esse hábito de nos juntarmos para ouvir a mesma música e falarmos a mesma linguagem.

DA – Quem são as grandes estrelas que te inspiram?
MR – Marva Whitney, Mary Jane Hooper, Anna King, Bob Dylan, Ottis Redding, James Brown, Aretha Franklin. Assim dos mais recentes tenho uma special crush pelo Charles Bradley, Erykah Badu, D’Angelo… Olha, podíamos estar aqui a tarde toda.

DA – Que memórias guardas dos tempos dos Sloppy Joe?
MR – As melhores! [risos]. Lembro-me bem do que aconteceu nesses dez anos. Cresci com eles, musical e pessoalmente, a base musical de tudo o que sei aprendi com eles e ainda hoje o núcleo duro continua muito amigo e a juntar-se para ouvir a mesma música. Tenho muitas histórias de estrada com eles… mas não tas posso contar! [risos]. Um dia conta-se num livro, quando já ninguém se lembrar de nós.

DA – Tem-te sabido bem, aposto, estas tão boas críticas internacionais que tens recebido…
MR – Sim, muito bem. Dos Estados Unidos foram as que mais me surpreenderam, como podes imaginar. Porque lá o que não falta é gente a cantar bem soul e a ter discos bons e eu não estava à espera que esse reconhecimento viesse precisamente dos Estados Unidos, a terra-mãe de onde veio esta música. Ver críticas em blogues, sites, revistas e rádios que eu sempre tive como referência, onde sempre vi os “meus” artistas a serem criticados, para mim está a ser um sonho tornado realidade. É que nesses sítios só me reconhecem pela minha música, não tem nada a ver com os meus amigos ou a minha editora ou contactos especiais que eu pudesse ter… não, isso não aconteceu. E estar lá, no meio dos “tubarões” todos da soul music e do funk clássico, é uma felicidade.

DA – Ouvi tantas vezes o ‘Summer’s Gone’ que receei a dada altura já não ter autorização para o reproduzir mais, sabes? [risos]
MR – Então eu vou-te dizer: a minha primeira ideia, visto que hoje em dia quase ninguém consome álbuns inteiros, era fazer exatamente como nos anos 60; as bandas só lançavam um álbum ao fim de três ou quatro anos e até lá iam lançando singles, porque as pessoas ouvem é músicas. Mas pronto, isso não é muito compreendido em Portugal, as pessoas precisam de ter o álbum, até para termos conversas assim, porque só com o single ninguém te quer entrevistar! [risos]. A música para mim é arte, é algo que vem da tua emoção, e isso não combina com datas, para mim é quase impossível. Da próxima vez vou tentar ser um bocadinho mais rápida mas acho importante o amadurecimento das músicas e da própria banda para chegares ao fim da meta com a certeza de que respeitaste o teu ritmo.


Daniela Azevedo

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