Anaquim em véspera dos concertos de apresentação do novo álbum: «Quisemos privilegiar os afetos; a imprevisibilidade do amor»

Os Anaquim com Daniela Azevedo antes dos concertos do Porto e de Coimbra

Depois do concerto no Teatro do Bairro, em Lisboa, onde Luísa Sobral marcou presença como convidada especial, os Anaquim preparam-se já para as próximas atuações que vão acontecer nesta sexta-feira, dia 8, no Passos Manuel, Porto, e no dia 15 no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.

O quinteto conimbricense está a apresentar o álbum novo, “Um Dia Destes”, o terceiro de originais, que tem como cartão-de-vista a canção ‘Sou Imune Ao Teu Charme’, disponível no fim da entrevista.

Além de Luísa Sobral, Jorge Palma é outro dos convidados do disco novo mas não estará presente nestes concertos que vêm, por certo, consolidar a posição da banda no panorama musical português. À palavra escrita e cantada em português junta-se o tom irónico e divertido que José Rebola, o vocalista e autor das letras, procura imprimir às músicas que, desde 2008, definem o perfil marcadamente português dos Anaquim. E… é realmente impossível ser-se imune ao charme deles…

Os Anaquim com Daniela Azevedo antes dos concertos do Porto e de Coimbra
Os Anaquim com Daniela Azevedo antes dos concertos do Porto e de Coimbra

Daniela Azevedo – “Um Dia Destes” é o álbum novo que vocês estão agora a apresentar ao vivo. Que histórias encontramos nele?
José Rebola – Precisamente isso, histórias, que é aquilo que nos caracteriza. Nós sempre fomos contadores de histórias e o nosso som é tão diverso quanto as histórias o são. No caso deste terceiro disco, as histórias são mais sobre afetos, encontros e desencontros, amores e desamores, que é um tema que já estava presente nos outros trabalhos mas nunca tinha sido figura de proa. Desta feita quisemos privilegiar esse tema e é também por isso que o álbum tem este nome, porque vivemos numa sociedade de urgência, de pressa, de andar a correr para todo o lado, de horas marcadas, e é a única coisa que vai escapando a isso é a imprevisibilidade mas inevitabilidade do amor. É uma coisa que acontece em qualquer dia.

DA – O ‘Sou Imune Ao Teu Charme’ refere-se um pouco a essa inevitabilidade e de uma forma divertida, certo?
JR – Essa música é sobre a ironia de às vezes dizermos as coisas mais difíceis de uma maneira mais ligeira; é o que tentamos fazer com as letras de Anaquim. Esta é sobre uma rapaz que diz “sou imune ao teu charme” e no resto da letra percebemos que não é nada imune; qualquer coisinha o faz recordar-se do amor que ainda sente pela rapariga. Nós gostamos de brincar com esses paradoxos e, de certa forma, abordar temas às vezes mais densos, como o caso do ‘Caros Amigos’, que fala sobre a emigração e as dificuldades de quem cá fica, mas tentamos captar o ouvinte de uma maneira ligeira, sem deixar de tratar os assuntos com seriedade.

DA – É notícia que “Um Dia Destes” entrou diretamente para o top nacional de vendas de álbuns. Ainda é importante, hoje em dia, estar-se nos tops?
JR – Sim, é, isso acaba por ser um bastião de reconhecimento numa altura em que já não se vendem muitos discos, mas no nosso caso não é o mais importante. O nosso interesse é levar música ao maior número de pessoas possível e depois tentar que elas fiquem connosco para álbuns futuros, concertos futuros e na interação que hoje em dia se faz nas redes sociais. Somos muito ativos no Facebook e gostamos de perceber a opinião das pessoas porque é nelas que nos vamos inspirar para novas histórias e aventuras.

DA – São mesmo vocês que respondem no Facebook?
JR – Somos mesmo nós e dá-nos gozo esse contacto direto.

DA – Além de Ana Bacalhau, Viviane, Luísa Sobral e Jorge Palma, com que outro artista gostariam de fazer um dueto?
JR – O Jorge Palma foi uma adição enorme a este disco; poder colaborar com um dos gigantes da música portuguesa foi fenomenal. Gostávamos de trabalhar com a Ana Moura, o Manuel Cruz ou o Sérgio Godinho; não gostamos de ficar fechados num casulo e, por isso, não temos que o fazer só com artistas do nosso estilo musical. Às vezes os duetos improváveis são os que melhor resultam. É por isso que muitas vezes acontece uma “dança” em palco com a nossa troca de instrumentos que é algo que tem de ser muito bem coordenado mas que reflete a nossa versatilidade.

DA – Zeca Afonso ou Sérgio Godinho, que vocês referiam como influências nos vossos primeiros trabalhos, continuam a sê-lo?
JR – Sim, sim… Acho que as canções de intervenção já estão no nosso código genético. Quando nascemos essas canções já existiam. Eu ouvi-as em pequeno, quando o meu pai tocava guitarra para mim e para a minha irmã. Em minha casa até havia um livrinho, que agora está meio comido por milhares de insetos [risos], que tinha as letras do Zeca Afonso, que eu me habituei a ler desde pequenino, portanto não é uma influência consciente, é algo que já está enraizado na maneira como aprendemos a ouvir música. Claro que essa influência também vem pelo papel que eles desempenharam e por esta maneira que eles também tinham de dizer as coisas de forma indireta; tinham que fazer uma certa “ginástica” para poderem dizer certas coisas, e esse é um legado que tentamos seguir mesmo que hoje em dia tenhamos o luxo de o poder fazer de uma forma mais divertida.

Os Anaquim são José Rebola (voz e guitarras), Pedro Ferreira (teclados), Luís Duarte (guitarra), Filipe Ferreira (baixo) e João Santiago (bateria)
Os Anaquim são José Rebola (voz e guitarras), Pedro Ferreira (teclados), Luís Duarte (guitarra), Filipe Ferreira (baixo) e João Santiago (bateria)

DA – O público português está hoje mais recetivo à música que se faz por cá?
JR – Acho que sim. Há muita gente a aparecer e parece-me que há cada vez mais interesse das pessoas, há cada vez menos vergonha de se dizer que se gosta de música portuguesa. Houve uma altura, ali pelos anos 90, em que era foleiro, e agora, finalmente, já não é. Acho muito feliz a frase “a música portuguesa a gostar dela própria” e gosto de ver o público português a gostar dele próprio.

DA – O valorizar do fado, do cante alentejano ou do chocalho, por exemplo, é algo que vos dê satisfação?
JR – Claro que sim. Portugal tem uma riqueza de património e de tradições que não deve ser esquecida e nós, embora não sendo uma banda tradicional, temos uma portugalidade bastante grande que nos orgulha. Fico muito satisfeito quando vejo tudo isso a ser reconhecido ao nível europeu e mundial. É bom vermos essa riqueza valorizada no estrangeiro para também o ser em Portugal, porque às vezes o circuito é ser primeiro reconhecida lá fora e depois cá.

DA – Quem for aos vossos concertos do Porto e de Coimbra o que é que pode esperar?
JR – Muita energia, alegria, interação, muita festa, boa música e bem tocada, porque tentamos não fazer igual ao que está no álbum. Somos uma banda que quer estar em palco em comunhão com o seu público. Para nós o espetáculo é um evento bilateral; a energia passa do palco para o público e do público para o palco e é isso que torna cada concerto único. Se vamos dizer as mesmas piadas e vibrar com as mesmas coisas, torna-se igual para nós e para o público que não vai ver-nos uma segunda vez. Vamos tocar todos os temas deste álbum e mais alguns do nosso reportório anterior.

DA – E quando não há essa energia qual é o truque para conquistar um público mais difícil?
JR – O truque é escapar da rotina, não ter tudo programado ao milímetro nem ter as reações iguais consoante o público vibra muito ou pouco, isso para nós não faz sentido. É guardar algum espaço para a espontaneidade e conseguir fazer alguma conversa porque os públicos não costumam ser muito difíceis, demoram é mais tempo a “aquecer”, até se soltarem e até podermos dizer certas coisas. Outro truque: nunca falar de futebol! [risos] Isso dá sempre confusão, há sempre alguém que se ofende imenso, já aprendemos isso!

DA – Também têm aquela música que o público não vos deixa ir embora sem tocarem?
JR – Temos e ela tem muito a ver com as faixas etárias. A faixa etária abaixo dos 15 anos gosta muito do ‘Tom Sawyer’, um tema que repescámos da antiga série de animação. Depois o ‘Balalaikas’ e ‘As Vidas dos Outros’ também, só que as pessoas já sabem que vamos tocar essas mais tarde ou mais cedo, portanto, já não pedem tanto [risos]. Às vezes há quem peça o ‘Lídia’ ou ‘Lusíadas’ mas o nosso público é muito heterogéneo e, portanto, vai-nos dando feedback do resto do álbum, não só dos singles que saem. Para nós é muito bom perceber que não basta fazer um ou dois singles e o resto do álbum para encher. Pensámos este disco como um todo, foi por isso que a orquestração foi feita para haver um fio condutor do princípio ao fim.

Daniela Azevedo

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