De onde vem a inteligência de uma cidade inteligente? António Pires dos Santos, da IBM, explica

Smart Cities

Nos anos 90, falar de smart cities ou cidades inteligentes era o mesmo que ter uma conversa ou no campo académico e ainda sem sustentação prática, ou entre amigos imaginando cenários futuristas onde nos alimentávamos com um comprimido para o dia todo e nos teletransportávamos até onde quiséssemos. Nos últimos tempos, essa realidade tornou-se mais próxima, não só graças aos avanços da tecnologia, mas também porque a grande densidade populacional está a obrigar a repensar a sustentabilidade, principalmente, das capitais, no que concerne ao alojamento, transportes e níveis de poluição.

Na Europa, cerca de 80% da energia disponível é consumida nas cidades. Nas diversas designações que encontramos para smart cities, podemos resumi-las numa definição: cidades que se desenvolvem economicamente mas, em simultâneo, são capazes de aumentar a qualidade de vida dos seus habitantes.

Segundo uma reportagem levada a cabo pelo jornal Guardian em fevereiro deste ano, há já, pelo menos, três cidades no mundo consideradas smart. São elas Songdo, na Coreia do Sul, uma referência em matéria de planeamento urbano que ganhou expressão em 2009 e deve estar concluída no ano que vem, Copenhaga, na Dinamarca, que conseguiu reduzir o uso de combustíveis fósseis. É certo que a cidade já tem bicicletas equipadas com GPS mas o trabalho também foi feito na reestruturação dos edifícios da cidade e Santa Ana, nos Estados Unidos, que se tem revelado um exemplo em matéria de reutilização da água. Até a água que não é potável passa por um processo de limpeza, chamado micropurificação, que a torna pura novamente desde 2014.

Apesar destes bons exemplos, o mundo ainda está a aprender como o uso intensivo de tecnologias de comunicação e informação e a Internet of Things podem contribuir para melhorar as condições de existência das populações e fomentar a criação de uma economia criativa pela gestão baseada em análise de dados.

António Pires dos Santos | Business Development, Cognitive Solutions da IBM Portugal
António Pires dos Santos | Business Development, Cognitive Solutions da IBM Portugal

A IBM foi foi uma das grandes empresas de tecnologia a criar um departamento de pesquisa na área. Daí que seja incontornável perguntar a António Pires dos Santos | Business Development, Cognitive Solutions da IBM Portugal, de onde vem a inteligência de uma cidade inteligente? Eis o resultado:

Daniela Azevedo – Em que medida é que as smart cities, ou as cidades do futuro, serão mais sustentáveis e saudáveis?
António Pires dos Santos – Uma cidade inteligente implica um conjunto de processos que sejam inteligentes e interligados com foco nos cidadãos, criando condições para melhorar o dia-a-dia, a qualidade de vida dos que lá vivem e trabalham, mas também para atrair mais pessoas, mais empresas, mais talento. Sendo que se estima que em 2050, 80% da população viva nas cidades, passando dos atuais 3,3 mil milhões de pessoas para os 6,4 mil milhões, há a necessidade crescente de lidar com desafios totalmente novos. À medida que a população nas grandes urbes cresce, torna-se necessário responder aos problemas da urbanização massiva, da falta de infraestruturas, e ainda outros relacionados com fatores económico-sociais e com o aquecimento global. Só há um caminho para os centros urbanos sustentarem o seu crescimento e desempenharem um papel positivo e central na economia global: progredirem de forma inteligente. E serão mais inteligentes quanto melhor souberem gerir o fluxo de dados que têm disponíveis e transformá-lo em informação válida, para que os seus líderes possam tomar decisões mais eficazes. As infraestruturas das cidades que proporcionam serviços como transportes, saúde, educação, segurança pública, energia e água, têm de confiar na riqueza da informação e nas tecnologias inovadoras que permitirão dar saltos qualitativos e responder de forma mais eficaz às necessidades crescentes das populações. Em suma, uma cidade de futuro tem de aproveitar melhor a riqueza dos seus dados.

DA – Há o risco de haver excluídos tecnológicos nessa realidade?
APS – Será inevitável, haverá sempre os chamados excluídos tecnológicos nessa realidade, principalmente entre a população mais idosa ou com menos acesso a tecnologia que hoje já é comum. No entanto, esse será um problema no imediato e não no futuro, onde se espera que essa camada seja cada mais ténue.

DA – E o poder local? O que poderá vir a beneficiar ao transformar a sua cidade numa smart city?
APS – O poder local, certamente, irá tirar vantagens dos benefícios que a cidade vai receber ao tornar-se numa smart city. Por exemplo, ao nível das infraestruturas, os serviços fundamentais, como estradas e serviços de utilidade pública, tornam as cidades mais desejáveis e habitáveis, mas a chave para que elas se mantenham viáveis e atrativas é a prontidão para abraçar a mudança constante a que estamos sujeitos.

DA – No fundo, quem pode beneficiar destas tecnologias?
APS – Todos. Os cidadãos, através da educação, de uma saúde mais inteligente ou de programas sociais, as infraestruturas, seja no setor dos transportes, da água ou da energia, ou a gestão e planeamento, com uma maior segurança pública, com uma melhor administração governamental ou as operações na cidade.

DA – Qual é o primeiro passo nesta jornada de transformação progressiva?
APS – Os sistemas e softwares programáveis convencionais já não têm capacidade para lidar com este nível de complexidade. O IBM Watson, o sistema cognitivo da IBM, integra três grandes capacidades que o distinguem da restante tecnologia como a conhecíamos até agora. Por um lado, compreende e processa linguagem natural. Por outro, tem a capacidade de analisar uma grande quantidade de dados num piscar de olhos – realizando inferências, descobrindo novas relações, apontando hipóteses e encontrando respostas mesmo entre os dados não estruturados, que se estima que sejam 80% dos dados de hoje. Por fim, aprende de forma dinâmica, saindo do paradigma que limita os sistemas a fazerem apenas aquilo para que foram programados.

DA – Como é que se poderá vir a regular a já grande complexidade administrativa local?
APS – Creio que o objetivo deve ser simplificar e não acrescentar mais complexidade à já existente. Nesse sentido, o acesso a dados fiáveis e em tempo real poderá ajudar à tomada de decisões de uma forma mais célere, diminuindo a burocracia e simplificando processos.

DA – Como é que a IBM reage quando alguém manifesta grande receio face a esta inevitabilidade futura?
APS – O objetivo da IBM não é que as máquinas substituam os humanos, mas sim ajudar as pessoas no seu dia-a-dia. Preferimos a expressão inteligência aumentada em vez de inteligência artificial. A IBM antecipou no final de 2015 a nova Era Cognitiva, em que os sistemas não são programáveis e têm a capacidade de aprender e compreender, permitindo mais facilmente extrair conhecimento do amontoado de dados não estruturados que são produzidos diariamente. E são estas capacidades analíticas e únicas do IBM Watson que estão a potenciar uma mudança sem precedentes nas nossas cidades e em todas as indústrias, designadamente na Saúde, no Retalho, na Educação e na Banca, colocando-o na frente nesta nova computação cognitiva. A IBM introduziu três princípios para a Era Cognitiva que regem o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial e como são adotados e utilizados. Um desses princípios é a transparência e a IBM compromete-se a esclarecer quando e para que propósitos a inteligência artificial é aplicada nas soluções cognitivas que desenvolve, quem e o quê está a formar o sistema e respeita o princípio de que o cliente tem os seus próprios modelos de negócio e propriedade intelectual e que pode utilizar a inteligência artificial e os sistemas cognitivos para melhorar as vantagens que construiu através de anos de experiência.

DA – A tradição pode conviver com o conceito “smart”?
APS – Sem dúvida. Ter uma cidade mais inteligente não significa que a tradição tenha de acabar. Tal como outros países, Portugal seguirá a tendência internacional de instrumentalização e digitalização da realidade, com projetos que têm por objetivo melhorar a forma como vivemos e trabalhamos nas nossas cidades e regiões. A IBM tem neste momento dois Centros de Inovação Tecnológica, um em Tomar e outro em Viseu, que procuram desenvolver soluções inovadoras na área das Smarter Cities, seja para a indústria dos transportes, para a gestão de recursos e resíduos, algumas delas neste momento implementadas em projetos-piloto, que a seu tempo revelaremos.

Daniela Azevedo

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