Realizador de “A Floresta das Almas Perdidas” no Fantasporto: «Um filme de suspense e de surpresas»

A Floresta das Almas Perdidas com Daniela Love

E se, algures num Portugal escondido da Luz, houvesse um lugar para onde os mortos vão ainda antes de o estarem? E se nesse local encontrassem alguém que agisse como agente facilitador da morte? Que consequências é que esse encontro traria?

Quem se quer suicidar perde-se n’”A Floresta das Almas Perdidas”. Mas é lá que a Carolina se encontra e se revê. O filme, todo a preto e branco, começa com uma sugestão falaciosa: uma imagem de cadeados em coração, dispostos como na Pont des Arts, em Paris, a sugerir uma qualquer história de amor com cabimento no Fantas. Van Gogh e Nietzsche são citados no diálogo entre as duas personagens que alimentam a trama e nas lições de vida que procuram passar entre si.

A floresta parece-nos estranhamente silenciosa, com árvores tão densas que nem a vida selvagem ali quer assentar. Facilmente acreditaríamos, isso sim, que ali têm casa vários espíritos malignos.

Num tempo em que só a alegria e a felicidade constantes parecem merecer a aprovação da sociedade em geral, viver pode não ser exatamente um privilégio para quem sente o peito a ser invadido por uma tempestade tão desvairada que é preciso engolir em seco e enrolar os dedos uns nos outros para não ferir o falso equilíbrio dos nossos convivas.

Aludindo a uma atmosfera falsamente feérica, Carolina refere-se ao suicídio como um ato de coragem que deve ser acompanhado de uma digna “nota de suicídio” assente numa talvez inventada “teoria da convicção”. O objetivo da jovem, contudo, choca-se com a inocência e atitude de festivaleira travessa com que se nos apresenta inicialmente. “A Floresta das Almas Perdidas” é um inquietante despertar de consciência para a maneira como os dramas familiares de hoje em dia, mesmo nas famílias de classe alta, nos podem afetar e destruir.

O thriller, do realizador José Pedro Lopes, da produtora Anexo 82, e cujo trailer está disponível aqui, conta com Daniela Love no papel principal e tem estreia mundial a 26 de fevereiro no Teatro Rivoli, na Semana dos Realizadores do Fantasporto que apresenta quase 200 horas de filmes e 55 produções nacionais, segundo já anunciou o diretor Mário Dorminsky. Em março vai estar no Cinema S. Jorge na competição oficial do FESTin Festival Itinerante de Cinema em Língua Portuguesa.

A secção competitiva do Fantas, que em 2016 consagrou “The Lure”, da polaca Agnieszka Smoczynska, abre no dia 24 de Fevereiro com o filme “The Age of Shadows”, de Jee-woon Kim.

The Forest of Lost Souls - International Poster
The Forest of Lost Souls – International Poster

Com o apetite aguçado para a edição deste ano do Fantasporto, nada como ficar a conhecer melhor o trabalho de realizador e atriz antes de se comprarem os bilhetes.

Daniela Azevedo – Como foi o processo por detrás d’”A Floresta das Almas Perdidas”?
José Pedro Lopes – “A Floresta das Almas Perdidas” começou como um pitch de curta-metragem em 2011 num evento chamado Pitching Forum, que junta realizadores e produtores e que é organizado pelo FEST – Festival Novo Cinema Novos Realizadores em Espinho. A partir daí a história, inicialmente apenas sobre dois suicidas que se conhecem por acaso, foi crescendo e fui explorando alguns temas que me interessavam – de como o oportunismo e o mal aparecem mesmo nos locais de mais fragilidade, da futilidade da vida moderna e de como as pessoas desvalorizam a vida dos outros. Queria contar a história de uma família que lidava com uma grande perda, e a história de alguém que não queria saber dos outros. Mas “A Floresta das Almas Perdidas” é, acima de tudo, antes de tudo, um filme de suspense e de surpresas. Para fazer o filme recorremos à equipa com quem já trabalhamos em curtas-metragens e noutros projetos e fomos procurando parceiros e apoio que tornassem tudo possível. O filme foi rodado uma semana em 2014, outra em 2015 e ainda alguns dias em 2016. Foi rodado uma parte na região de Águeda e no Caramulo, outra parte no Porto e em Vila do Conde, outra em Espanha. Foi um longo processo – e o filme foi mudando connosco. Fazer cinema independente é assim, um amor a longo prazo.

DA – Este foi o teu primeiro trabalho como realizador?
JPL – Antes de “A Floresta” já tinha realizado alguns filmes de ficção. As curtas-metragens “O Risco” e “Survivalismo”, ambas percorrem extensivamente festivais. Realizei também uma curta para lançamento online no concurso “The ABCs of Death” chamada “M é de Macho” que conseguiu bastante popularidade na altura. Mas tenho trabalhado mais como produtor, de curtas a longas, de documentário a lição. Apenas realizei “A Floresta das Almas Perdidas” porque arriscarmos a produzir a nossa própria longa era um passo de gigante, e achamos que era mais seguro assim.

DA – Como foi trabalhar com a Daniela Love?
JPL – Eu já tinha trabalhado com a Daniela antes, nomeadamente numa curta-metragem que produzi chamada “Videoclube”, realizada pela Ana Almeida. Era um drama adolescente, e em muitos aspetos parecido com “A Floresta das Almas Perdidas”. Mas trabalhamos juntos noutros filmes, como “M de Mail” de Pedro Santasmarinas e num filme que fizemos para o canal americano Crypt TV, assim como filmes comerciais. Por isso quando foi para fazermos “A Floresta” foi muito fácil trabalhar com a Daniela, até porque eu e a Ana Almeida (produtora) sempre vimos aquela personagem como sendo escrita para ela.

DA – Fizeste um filme sobre suicídio. Acreditas que a tristeza pode ser inspiradora?
JPL – O suicídio é um mote para os eventos do filme, mas o filme no final debruça-se pouco sobre isso. É mais sobre quem sobrevive e não sobre quem decide partir. Como lidar com a perda, e por aí, bastante sobre a tristeza. Mas por outro lado, acaba por ser menos sobre a tristeza e mais sobre quem encontra a felicidade a fazer mal aos outros. Acho que a tristeza pode ser tão inspiradora como a felicidade, mas acho que é como a vida em si. É triste sabermos que um dia estaremos separados de quem amamos, mas nada é mais feliz do que saber todo o tempo que vamos ter juntos.

DA – Consideras viver apenas do trabalho de realizador em Portugal?
JPL – Eu trabalho numa produtora audiovisual baseada no Porto chamada Anexo 82. Nós não trabalhamos exclusivamente na criação de conteúdo próprios nem em ficção. É algo que ainda estamos a organizar. Nesse sentido, não me vejo como vivendo apenas como realizador (autor) de projecos mas mais como produtor de todo o tipo de projetos, para nós e para outros.

DA – Tens um realizador de eleição? Quem?
JPL – O meu realizador favorito é o John Carpenter. Curiosamente não tanto pelo lado de terror da carreira dele, que é fantástico, mas sim pelo seu lado autoral e independente. “Halloween” é um exemplo fantástico de cinema independente feito para funcionar e tirar partido de limitações. “Eles Vivem!”, um dos seus filmes já em tempos de queda de popularidade, é um filmes mais relevante nos dias de hoje do que qualquer outro dos anos 80. Ele representa aquilo que eu mais gosto: um autor divertido, consciente politicamente, e com um grande sentido de equipa e camaradagem nas equipa com que trabalhava.

DA – Qual a importância do Fantasporto na divulgação deste género de filmes?
JPL – Eu sou do Porto e cresci com o Fantas. O primeiro filme que vi lá foi “A Relíquia” em 1995. E foi lá que comecei a ver cinema que não era de Hollywood e a descobrir o cinema asiático que é um grande inspiração para o meu filme. E a verdade é que mais que um festival de terror, o Fantasporto é um festival de cinema independente que toma muitos riscos na sua programação. É um “objetivo de vida” ter uma longa a estrear lá.

O realizador José Pedro Lopes
O realizador José Pedro Lopes

O filme, rodado em Portugal e Espanha, foi realizado por José Pedro Lopes e conta no elenco com Daniela Love, Jorge Mota, Mafalda Banquart e Lígia Roque. A produtora Anexo 82 contou com o apoio do Studio 2203, Agente a Norte, Coletivo Creatura, e o apoio financeiro da Fundação GDA. Daniela Love, mesmo no estrangeiro, aceitou responder a uma pequena entrevista.

Daniela Azevedo – Como te sentiste no papel de quase facilitadora da morte?
Daniela Love – Quando me foi feita a proposta achei que o papel me poderia dar possibilidades que ainda não tinha explorado enquanto atriz. A Carolina tinha uma fisicalidade diferente do que normalmente me é proposto, por exemplo. Fiz uma pesquisa enorme para tentar encontrar a personagem, isso fez-me perceber que tinha que ser um processo intuitivo, que a personagem pedia isso. Foi um desafio, por isso deu-me muito gozo.

DA – Como foi trabalhar com o José Pedro Lopes?
DL – Já conhecia o José Pedro de projetos anteriores, é uma pessoa que já conhece bem o meu trabalho e que, apesar de saber muito bem o que quer, dá liberdade aos atores para criarem, por isso foi um processo bastante natural.

DA – Que outros trabalhos tens feito como atriz?
DL – Os últimos projetos que fiz em cinema foram o “Laranja Amarelo”, uma curta-metragem realizada pelo Pedro Augusto Almeida, e “Ramiro”, uma longa-metragem realizada pelo Manuel Mozos. Estão ambas em pós-produção. Tenho trabalhado também em vídeos promocionais, telefilmes, teatro de marionetas e pontualmente integro projetos de performance.

DA – Que expectativas tens para a tua carreira depois da estreia no Fantas?
DL – Fui algumas vezes ao Fantasporto, pessoalmente gosto daquele universo e estou entusiasmada com o filme estrear lá mas quanto a expectativas normalmente não as crio, só sei que quero continuar a fazer filmes.

Daniela Azevedo

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