Eugénia Melo e Castro sobre a sua carreira: «35 anos é imenso tempo»

Eugénia Melo e Castro

Eugénia Melo e Castro, uma das cantoras portuguesas mais acarinhadas pelos colegas músicos e com uma carreira de 35 anos vivida com particular intensidade no Brasil, disponibilizou nas plataformas digitais todos seus álbuns. Alguns deles já estavam online mas, sendo a artista dona de muitos dos seus masters, optou por procurar a editora Farol e, assim, acrescentar mais nove discos ao portfolio digital.

Na coleção agora disponibilizada está o álbum “Conversas Com Versos”, da autoria da mãe, Maria Alberta Menéres. Os outros são “Paz”, “Ao Vivo em S. Paulo”, “Desconstrução”, “Dança da Luz”, “Dança da Lua”, “Motor da Luz”, “Recomeço” e “Lisboa Dentro de Mim”.

Eugénia Melo e Castro já dividiu os microfones com Milton Nascimento, Egberto Gismonti, Wagner Tiso, Tom Jobim, Ney Matogrosso, Gal Costa, Caetano Veloso, Chico Buarque ou Adriana Calcanhotto, só para citar alguns.

Numa pausa para férias junto da família em Portugal, Eugénia Melo e Castro teve a amabilidade de aceitar lanchar comigo numa esplanada lisboeta e conversar sobre esta decisão de disponibilizar mais material nas plataformas digitais mas também sobre como olha para o estado da música em Portugal e as aventuras nos palcos brasileiros.

Daniela Azevedo – Como é que surgiu a decisão de disponibilizar nas plataformas digitais toda a sua obra?
Eugénia Melo e Castro – Este é um contrato de cedência de masters meus à Farol, por vários anos, que se renovará automaticamente se estivermos contentes. A decisão surgiu porque eu já tinha dois álbuns na Farol, o de celebração dos 30 anos de carreira, e o “Gosto de Sol”, o meu último CD gravado em estúdio e que não saiu fisicamente aqui em Portugal, só no Brasil. Todos os outros discos, mesmo os que pertencem a editoras como a Universal, a Som Livre, a Sony ou a Warner já estavam online. Estes meus é que eu queria que estivessem acessíveis a toda a gente.

DA – E que outra presença online tem a Eugénia Melo e Castro?
EMC – Tenho toda. Não sou uma pessoa muito ativa. É verdade que sou eu que lá ponho as coisas, apesar de ter um amigo que me ajuda, mas só quando estou em digressão, com concertos ou a lançar alguma coisa é que eu me manifesto. Hoje em dia não perco muito tempo com isso mas até gosto. Para mim a Internet funciona mais como um arquivo, como uma base de dados para consulta. Da minha vida pessoal existe muito pouco, só uma brincadeira de vez em quando como eu a comer uma bola de Berlim na praia com a legenda: «Miss bola de Berlim 2016» [risos].

DA – No final do ano passado, no Brasil, a Eugénia apresentou um espetáculo chamado “SereiA Portuguesa”. Tem cabimento esse espetáculo ser, eventualmente, trazido para Portugal?
EMC – Não! O espetáculo terminava com uma brincadeira, musicada pelo Alemão do Cavaco, autor do samba da Mangueira, que é meu parceiro e fez a música: «nem sempre o samba é alegria, nem sempre o fado é sofredor». O show era algo que eu já queria fazer há muito tempo, que brinca com as palavras e tinha uma parte gráfica sensacional, comigo vestida de sereia…

DA – Apesar do trocadilho linguístico fazia esse apelo ao imaginário das sereias…
EMC – Claro, porque eu vivo muito entre os dois países, portanto o mar é muito importante para mim e essa mágica das sereias é muito atrativa. Fiz essa brincadeira da “SereiA Portuguesa” porque, no Brasil, nestes 35 anos, as pessoas pedem-me muito para cantar músicas portuguesas e eu nunca tinha nada típico preparado, nada emblemático, nada que eles gostassem realmente de ouvir, sendo eu uma cantora portuguesa. O que aconteceu é que foram as próprias pessoas que me foram dando o repertório de canções super conhecidas aqui como ‘Nem Às paredes Confesso’, ‘Foi Deus’, ‘Olhos Castanhos’, ‘Fado da Maldição’, ‘O Mar Enrola na Areia’ ou o ‘Não Vás ao Mar, Tóino’. Juntei todas elas, chamei o Swamy Jr. e o Olivinho, da Paraíba, um génio do acordeão, discípulo remoto da nossa grande Eugénia Lima, e eles tocavam corridinho a meio do concerto… foi uma mostra de coisas portuguesas divertidas e boas. Tinha uma mesa só de gins, azeites e cortiças feitos em Portugal porque são coisas de que eu gosto. Levei todo o material que tinha na minha sala da casa de São Paulo e montei no palco. Cantava em cima de um barril, tinha uma colcha vermelha daquelas que se põe à janela durante as procissões, muitos xailes lindos de seda, que eram da minha avó (nunca entendi porque herdei tantos xailes de seda tão lindos, não sei como apareceram aqueles xailes de fadista no espólio da minha avó, é um mistério [risos]). Era um palco muito português e o Swamy Jr., que neste momento é diretor musical dos Buena Vista Social Club, agarrou nas músicas portuguesas, fez arranjos diferentes e demos-lhes leituras diferentes… contei a história da onda da Nazaré, porque as pessoas lá ouvem falar dela mas não sabem que é enfrentada há anos e anos pelos pescadores e, para eles, é comum. Era um espetáculo muito falado, com muitas músicas e muitas histórias que fiz durante dois meses. A estreia teve a duração de duas horas e meia e tive de o cortar porque o público fazia muitas perguntas. Vou fazer novas temporadas no final deste ano.

DA – Então quer dizer que não nos vai brindar com espetáculos em Portugal nos próximos tempos?
EMC – Para ser muito franca, não tenho nada previsto. Fiz dois espetáculos há pouco tempo em Braga e Bragança mas infantis, a propósito do “Conversas Com Versos”, com um trio fabuloso que me acompanha aqui. Mas não tenho estado muito ativa em Portugal. Tenho alguma pena e, quando chego a passar cá uns três meses, tenho saudades mas nessas alturas componho, escrevo… estou sem pressa nenhuma na vida.

DA – Mas em 2009 soube bem receber cá o título de Dama da Ordem do Infante D. Henrique?
EMC – Não me interesso muito com os retornos. Gosto de ver uma casa cheia de público e gosto de cantar. Acho que fui apenas a primeira nos anos 80 a atravessar o Atlântico, a bater à porta dos músicos brasileiros e fazer um dueto, em 1982, com Ney Matogrosso. Esse arranque foi realmente uma coisa que eu fiz mas depois muitas outras pessoas o fizeram e já quase se tornou numa “escola”, esse conhecer e participar nos trabalhos uns dos outros.

DA – Com tantos nomes com quem já cantou, há algum com quem ainda gostasse de fazer um dueto?
EMC – Tantos! Isto não é um campeonato para colecionar nomes [risos]. Por exemplo, já fiz tantos duetos com o Ney porque somos amigos, existe uma cumplicidade. Às vezes chegam-me músicas à mão, eu ligo-lhe e ele, quase antes de saber o que é, diz logo: «Que máximo, vamos gravar!». Acho que as coisas têm de surgir de uma forma que me conduzam a um relacionamento musical de amizade. É um orgulho enorme ter cantado já com tanta gente. 35 anos é imenso tempo.

Recordemos, pois, a ‘Dança da Lua’, um dos primeiros duetos entre um músico português e um brasileiro.

Daniela Azevedo

 

 

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