Salto em Lisboa: «O disco é um desafio; pensado desde a sua génese até à venda»

Os Salto em Lisboa, janeiro de 2016

Os Salto começaram por ser Guilherme Tomé Ribeiro e Luís Montenegro, cujo primeiro álbum, homónimo, lançado em 2012, teve produção de New Max. Os dois também lançaram o EP “Beat Oven” em 2014. Ao duo portuense juntaram-se Tito Romão (bateria) e Filipe Louro (baixo) e têm vindo a conquistar cada vez mais a atenção do público e da crítica graças à sua música que reflete várias influências, desde as harmonias dos anos 60, à batida disco da década de 70, passando pelas pistas de dança dos anos 90.

No próximo dia 30 os Salto apresentam o seu 2.º álbum ao vivo num concerto em Lisboa, no Estúdio Time Out – Mercado da Ribeira. No dia 4 de fevereiro a apresentação é no Salão Brazil, em Coimbra. O segundo longa-duração da banda da Maia chama-se “Passeio das Virtudes” e é apresentado pelos singles ‘Mar Inteiro’ e ‘Lagostas’, que pode ouvir mais abaixo.

Gravado no Porto durante o verão, o álbum, composto por 12 temas, é o resultado dos primeiros dois anos dos Salto com quatro elementos. Este novo álbum retrata também os locais por onde a banda passou durante a “Tour Mar Inteiro”, de 2015, e o tempo que repartiram entre os concertos e a sala de ensaios. Alguns desses momentos vão ser partilhados com os fãs no próximo sábado; outros os quatro rapazes já partilharam connosco numa bela e amigável hora de almoço em Lisboa.

Os Salto em Lisboa, janeiro de 2016
Os Salto em Lisboa, janeiro de 2016

Daniela Azevedo – Musicalmente, por onde é que vocês nos levam a passear neste “Passeio das Virtudes”?
Guilherme Tomé Ribeiro – Acho que estamos mais século XXI, o que é bom para nós porque nunca vivemos nos anos 70 ou 80. Para quem ouve música desde os anos 80 também encontra aqui referências a essa época porque a música acaba sempre por ter pontos em comum ao longo dos tempos; não há nada que apareça que seja totalmente inovador.

DA – mas os mais jovens também têm que sentir que há na vossa música algo que lhes diga respeito, certo?
GTR – Sim, não fizemos o álbum a pensar em décadas anteriores, fizemo-lo para o ano em que estamos. As bandas que nos influenciaram neste disco são mais recentes que as do anterior. Mas para quem ouve música de outras épocas também é fácil estabelecer uma ligação connosco.

DA – O New Max produziu o vosso primeiro álbum. Também está presente agora no novo?
GTR – Não. Apenas espiritualmente [risos]. Este álbum foi já produzido por nós, que também tirámos entretanto o curso de Produção e Tecnologias da música, por isso quisemos pôr-nos à prova.
Luís Montenegro – A edição também é nossa. O disco é um desafio porque o pensámos desde a sua génese até ao ponto de venda, o que dá muito trabalho mas é gratificante e divertido, além de desbloquear práticas que nos ajudam imenso na nossa carreira.

DA – Vocês vão dar o primeiro concerto de apresentação do álbum novo aqui em Lisboa, no Estúdio Time Out, do Mercado da Ribeira. Porque é que escolheram um espaço de restauração para o fazer?
LM – Porque vamos estar a servir canapés! [risos].
Filipe Louro – Já se fizeram algumas associações pelo facto no nosso novo single se chamar ‘Lagostas’ mas foi porque surgiu a oportunidade e quisemos arriscar num sítio maior. Não queremos que seja apenas um concerto, mas sim uma noite de celebração, por isso também vai haver DJ sets nossos e de amigos nossos.

DA – Vocês começaram por ser dois e agora são quatro. Com essa mudança o que é que mudou na sonoridade do grupo?
GTR – Mudou muita coisa. O primeiro disco foi feito com base em programações e com uma componente eletrónica de samples. Agora essa componente foi substituída por duas pessoas que acrescentam muito. E essas pessoas até se enganam com estilo! [risos]
FL – Já tive problemas por estar a fazer de mimo, a tocar e não estar a sair som nenhum [risos]. Mas é importante estarmos em paz com as nossas falhas. O primeiro disco perdia esses elementos ao vivo.
Tito Romão – Dantes não havia hipótese nenhuma de eles tocarem tantos instrumentos. Fomos uma aquisição humana e musical.
LM – O importante era que eles fossem criadores também. O álbum anterior era uma mescla de sons desorganizados entre eles, que eram difíceis de executar e a música perdia alguma virtude. Agora somos nós os quatro e é muito parecido ao que fazemos na sala de ensaios.

DA – Entre o vosso primeiro álbum e este segundo, Portugal viveu uma época de crise; não havia notícia onde a palavra “crise” não aparecesse. Como é que os Salto atravessaram essa fase? Recearam não conseguir avançar com o projeto?
GTR – Não, não… Nessas alturas é que as pessoas se devem reinventar e perceber o que têm de fazer. Tudo bem que pode haver menos dinheiro, menos marcas a quererem promover eventos e as promotoras acabam por sofrer com isso e reduzir o caudal de concertos, mas não é por aí.
LM – Nota-se diferença; em 2012 tocámos muito. Em 2013 começámos a tocar um bocadinho menos e só estamos a lançar disco novo agora em 2016. Estou confiante neste ano, acho que vai ser bom e que as pessoas e o mercado se estão a adaptar e continua a haver trabalho.
FL – A pergunta é interessante porque parece sugerir que há motivos externos à banda para isto não resultar mas internamente a motivação para fazer está sempre lá, independentemente do resultado financeiro. Pessoalmente sinto que vou fazer sempre música.

DA – É incontornável que vocês ganharam maior projeção após fazerem a primeira parte do concerto de fim de turné d’Os Azeitonas, no Porto, no Teatro Sá da Bandeira, em 2007, a convite dos próprios. Acham importante que os nomes já com créditos firmados na música ajudem a lançar quem chegou há menos tempo?
LM – A banda nasceu por causa desse concerto, foi para esse concerto que criámos o nome Salto; os nossos dois nomes juntos mais parecia uma dupla de música sertaneja! [risos]. Mas tem de ser; os mais velhos gostam de ver os mais novos a crescer e os mais novos vão sempre olhar para eles como melhores.
GTR – Acho que agora se começa a ver muito isso. Vamos todos aos concertos uns dos outros, somos amigos, e nota-se que isso tem vindo a acontecer cada vez mais e nós, entre os Capitão Fausto, os D’Alva, Miguel Araújo, Best Youth, We Trust e tanta gente, temos sentido muito esse apoio. Aprendemos imenso com outras bandas, quer no processo de gravação, quer na tour, e é bom haver essa abertura. Assim, crescemos todos.
TR – Lá fora não há tanto esse sentido de comunidade. Apesar de cá a oferta artística não ser tão boa quanto lá fora, a verdade é que somos mais unidos e há uma motivação saudável para todos continuarmos a criar música; toda a gente ajuda toda a gente.
FL – Noutros países, com mais estrutura musical e mais pessoas, têm projetos de qualidade em maior quantidade. Mas cá também temos cada vez mais gente, de cada vez mais géneros, a fazer coisas com qualidade e com reconhecimento lá fora. É incrível e nós também queremos ir lá para fora. Chamem-nos que nós vamos! [risos]

Daniela Azevedo

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