GNR no Coliseu: a caixa não é negra; é mágica

GNR no Coliseu dos Recreios, Lisboa, a 31 de outubro de 2015, fotografado por Nuno Fontinha

Chama-se “Caixa Negra” e é o novo álbum de originais dos GNR, o 12.º da carreira do grupo do Porto. Sem fugir aos trocadilhos com as palavras e às versões sempre novas com contextos criados de fresco, a banda atuou esta noite no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, que, apesar de não ter muito público, assistiu ao nascer de uma nova geração de fãs.

Foi um concerto que atraiu muitas famílias, com crianças pequenas, a quem se notava que os pais estavam a tentar ensinar as letras das canções. Afinal, também nós tivemos um amigo que um dia nos pegou no braço, sentou-nos e pespegou-nos uns auscultadores na cabeça para ouvirmos a cassette onde estava o bom rock cantado em português. Pode ter sido o “Psicopátria”, em 1986, a “Valsa dos Detectives”, já no liceu, em 1989, ou o “Rock In Rio Douro”, em 1992, enquanto se escondia a embalagem de Clearsil acabada de trazer da farmácia. Podem ter sido todos estes e mais alguns mas descobrir GNR lá atrás do tempo faz parte das memórias que não nos escapam.

Durante duas horas de espectáculo ouviram-se temas novos, mas a banda de Rui Reininho, Jorge Romão e Tóli César Machado também revisitou temas antigos, resultado de 34 anos de carreira sempre emblemáticos, com nova roupagem. Depois de se terem desligado da corrente, agora os GNR voltaram a actuar com banda, embora a linha da frente estivesse sempre reservada aos três GNRs.

‘Caixa Negra’, ‘Triste Tritan’, ‘Quando o Telephone Pecca’, do álbum “Rock in Rio Douro”, de 1992, ‘Efectivamente’, ‘Homens Temporariamente Sós’, ‘Pós Modernos’, ‘Mais Vale Nunca’ e ‘Sub 16’, deram logo para perceber que íamos ter direito a um concerto misto, tal como estava prometido, com amostras mais recentes e outras mais antigas. Rui Reininho, até esta altura, estava pouco falador e sem dar qualquer sinal do seu humor tão característico o que, para os fãs de há mais tempo, fazia antever um concerto morno o que acabou por se reverter. A entrada em palco de Rita Redshoes trouxe a sparkling light que o concerto estava a precisar no dueto da nova e lindíssima canção ‘Dançar SOS’. Colou-se, também do disco novo, ‘Honolulu’. Crianças e adultos já aplaudem sincopadamente o final de cada canção, cada ínfimo momento de felicidade que músicas como ‘Vídeo Maria’ e ‘Las Vagas’ nos trazem.

Tomás Wallenstein, vocalista dos Capitão Fausto, entra em palco para os duetos de ‘Popless’ e ‘Bellevue’. O primeiro não sai tão bem, o segundo já é aplaudido. «Luaty Beirão não pode vir, está muito fraquinho, mas está aqui, no nosso coração. Veio o Elton John» disse Reininho antes de cantar ‘Asas’.

Tal como aconteceu no Porto, com a presença inesperada do guarda-redes do Futebol Clube do Porto, Helton, também em Lisboa ‘Quero Que Vá Tudo P’ró Inferno’ contou com uma ajudinha: aqui foi a de uma fã, a Maria João, vencedora de um passatempo, que justificou a cantar o porquê de ter recebido o prémio. Curiosamente fica a sensação de que a voz da Maria João encaixaria melhor em ‘Pronúncia do Norte’ que, por artes mágicas que um dia vieram de Manhouce, Viseu, até às grandes cidades, continua a ser uma canção para se escutar com uma mão no peito. A outra agita-se ao som do belo acordeão de Tóli. E o público fica a cantar até muito depois da música já se ter calado.

De referir que Rui Reininho exibia nesta fase do concerto uma t-shirt com a bandeira da Turquia numa atitude, por certo, de felicitação ao principal país que acolheu refugiados Sírios.

Sabe muito bem ouvir este rock em português pelo imaginário que os GNR nos fazem atravessar, só pelo evocar de certas palavras. Por si só, já é o caso de ‘Morte ao Sol’ mas hoje, e depois de muitos anos a gostar, ver e ouvir GNR, tive direito à melhor versão de sempre de ‘Morte ao Sol’, em dueto com Rita Redshoes, mas soberbamente aconchegada na gaita de foles de Gonçalo Marques.

Os trompetistas Bento Arruda e Ivo Rodrigues, do grupo de mariachis Los Cavakitos, juntam-se à festa também e convidam a um pézinho de dança para dar um tom mais animado na recta final do concerto com ‘Sangue Oculto’. O Grupo Novo Rock sai de palco por pouco tempo e fecha a noite com ‘Corpos’, ‘Morrer em Português’, ‘Ana Lee’ e o ponto final com ‘Dunas’. Há mais para dizer? Não parece. Há mais para ouvir? Há, de certeza que há, porque precisamos destes gatilhos para vermos a nossa vida boa a passar-nos à frente sem ser em cenário de caos.

GNR no Coliseu dos Recreios, Lisboa, a 31 de outubro de 2015, fotografado por Nuno Fontinha
GNR no Coliseu dos Recreios, Lisboa, a 31 de outubro de 2015, fotografado por Nuno Fontinha

Trabalho feito por Daniela Azevedo para o extinto site do grupo Media Capital Rádios: Cotonete – Música e Rádios Online

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