Ivetthy Souza em “De Onde Vens”: samba + jongo + frevo + maracatu = jazz

O álbum “De Onde Vens”, de Ivetthy Souza, confronta-nos com dois conceitos musicais diferentes daqueles a que estamos habituados a ouvir e a assumir como certos: que o jazz nasceu no início do século XX numa Nova Iorque que associava investimentos em bolsa a status e numa Chicago cheia de neons e fatiotas bem passadas a ferro, enquanto o samba vem do lado do calor, suspeitando-se até que tem origem africana, certo?

Não propriamente. Esta brasileira de Belém do Pará, cidade do norte do país, dona de um registo fora do comum, pega em temas de Ivan Lins ou Djavan, por exemplo, e dá-lhes uma nova camada de jazz com sambinha. Aquele sambinha suave, que puxa até pela saudade, pela melancolia dos dias de peito apertado pela falta que sentimos dos que estão distantes e que queríamos abraçar. ‘Influência do Jazz’, logo a primeira faixa, é o melhor exemplo disto: é jazz de verde e amarelo, jazz de gingado de anca. A influência continua pelo disco fora até se chegar à história do ‘Menino das Laranjas’, cantada com aquela dose certa de dor e fé que só os brasileiros conseguem misturar e convencer o mundo inteiro de que, no final, tudo vai dar certo (e dá mesmo).

Podemos até já conhecer as letras, porque o disco não tem temas originais, mas os ritmos são mais quentes que o jazz tradicional graças a arranjos muito inspirados. Uma inspiração que talvez lhe venha dos seus primeiros tempos como cantora, quando o muito que hoje tem ainda era só um sonho.

O trabalho discográfico conta com as participações  especiais de Dori Caymmi , Claudette Soares e Laercio de Freitas, arranjos dos maestros Theo de Barros, maestro Branco, Itibere Zwarg e Paulinho Parana, além dos músicos Lea Freire, Nailor Proveta e Giba Pinto, entre outros.

Ivetthy Souza chegou a São Paulo em 1988 e, certa noite, num bar da Santa Cecília, onde morava, foi chamada ao palco de surpresa porque a cantora oficial do espaço adoeceu de repente. O resto da história já se adivinha… Japão, Médio Oriente, Europa e América do Sul já viram concertos seus.

Em 2009 quis o amor que se instalasse com o marido e a filha em Itália onde permanece até hoje quer a cantar, quer a ensinar quem lhe quer seguir as pisadas. As batalhas são mesmo assim; têm que se travar e é o que Ivetthy tem conseguido fazer com um sorriso no rosto, a bandeira do Brasil no coração e uma vontade muito grande de continuar a cantar e entregar-se de corpo e alma a esse ofício.

Ivetthy Souza
Ivetthy Souza

Daniela Azevedo

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