Cobain Montage of Heck: ser ou não ser cool

DVD Universal – Cobain Montage of Heck

“Cobain Montage of Heck” é o documentário autorizado feito por Brett Morgen sobre a vida de Kurt Cobain, o líder dos Nirvana, desde os seus primeiros anos de vida na pequena cidade de Aberdeen, em Washington, até ao seu pináculo de sucesso musical com uma das maiores bandas de grunge da história.

Cobain é apresentado logo desde as imagens iniciais como um pequeno e vulnerável génio que, hiperactivo, começa a demonstrar aptidão para mexer em guitarras, com pintura e letras, ainda nos tempos de candura infantil. Preservar a memória e o legado de Kurt Cobain terá sido um dos objectivos do filme que, ainda assim, parece focar-se mais nos problemas que a dependência das drogas lhe causaram, do que propriamente no impacto, no empurrão escada abaixo, que foram os álbuns dos Nirvana para uma geração de adolescentes incompreendidos nos anos 90.

Ascensão e queda podem ser as duas palavras que resumem “Cobain Montage of Heck” que mostra bem como o processo de criação da obra dos Nirvana fora alimentado pela dor, raiva, frustração, vergonha, medo e humilhação do seu líder, que encontraram sentimentos análogos num conjunto tão alargado de fãs que pôs a banda que virava costas às luzes da ribalta nos primeiros lugares da influente tabela Billboard. Há momentos marcantes no documentário: o de Kurt Cobain devastado por uma má crítica feita por um determinado media. O momento relatado pela mãe em que esta o confronta com a já muito grande dependência das drogas. O outro flash anterior em que a mãe lhe prevê que o sucesso vai ser a sua maior fatalidade.

É curioso perceber que, no auge da fama, Cobain se esquivava a entrevistas mostrando, até, ódio pelos jornalistas e pelos media e rejeitava o título de “porta-voz de uma geração” quando, recuando até aos tempos de início de vida jovem como empregado de limpeza, a namorada da altura, Tracy Marander, recorda com grande lucidez que ele não queria ter uma “banda de bairro” mas sim algo grande e famoso. Faz falta perceber que formação o artista terá tido para se tornar no que se tornou. Fica implícito que já nasceu dotado, e sabemos que sim em muitos aspectos, mas podia haver um ou dois minutos mais pertinentes sobre como a música ganha forma à medida que vai crescendo.

Naquela altura não se falava em bullying nas escolas portuguesas. Simplesmente, não era essa a palavra. Havia os “populares” e havia os que eram gozados. Os que levavam calduços. Aqueles que tinham que passar no “corredor da morte” e proteger os olhos e a cabeça com as mochilas. Éramos os “boca de lata” e os “caixa de óculos”. Os que preferiam passar os fins de semana a lidar com os loading errors das primeiras disquetes em vez de jogar basquete ou, no caso das miúdas, experimentar os soutiens da irmã mais velha a ver se “já se notavam”. Deve ter sido numa dessas tardes que a minha grande amiga da altura, que estudava música, me terá mostrado o “Nevermind”. Sentámo-nos no chão do quarto dela, carregámos no play, e tivemos a certeza que tinha surgido alguém a pôr em canção o que tínhamos vontade de dizer na escola. De papel e caneta em punho, foi a vez do pause e do rewind. E escrevemos: «I feel stupid, and contagious, here we are now, entertain us. A mulatto, an albino, a mosquito…». De repente mudámos o guarda-roupa. Se era para sermos vistas como esquisitas, então vamo-nos vestir como os rapazes. E as nossas mães desiludiram-se quando trocámos os lacinhos cor de rosa por calças de ganga de marca dois números acima do nosso, as sabrinas pelas Yellow Cabs e as blusas de colarinho bordado por camisas de xadrez de flanela. E Kurt Cobain nunca saberá que isso foi tudo por causa dele e das malvadas letras que nos incitavam a uma cólera que, na verdade, só existia por causa da cólera dos outros. E foi assim que se passou com ele. A rebeldia, o ser do contra, terá começado, como se vê no filme, com o divórcio dos pais e a rejeição de ambos que se seguiu. Dos pais à sociedade foi um pulo e da sociedade para o mundo um acorde da guitarra da qual nunca se separava…

As declarações de Krist Novoselic, o baixista dos Nirvana, acompanham a segunda metade do documentário em que é lembrada a fase “em alta” do grupo. Já o baterista Dave Grohl, que também terá sido entrevistado, dele nem um segundo de imagem ou um som (enquanto relator actual do percurso de Kurt Cobain). Para nós que acabámos a curtir Foo Fighters essa participação faz muita falta e ficamos o filme todo à espera dela. Não vem.

O papel de Courtney Love, a mulher de Cobain, claro que não é descurado no filme e é mesmo sublinhado como um dos passaportes para a desgraça maior em que o músico terá mergulhado depois dela entrado na sua vida. A causa de uma das tentativas de suicídio do cantor, é-lhe atribuída aquando de uma quase-traição de Love, já depois do complicado e ultra mediatizado nascimento da filha dos dois. Frances Bean Cobain é, desde a sua gestação, vista como uma “heroína da heroína” que a mãe não terá largado nem durante a gravidez, nem enquanto fora uma frágil bebé. Magrinho e adoentado, Cobain foi várias vezes vítima dos problemas de saúde que lhe atacavam o estômago e que relatava em desenhos e em manuscritos que também aqui aparecem a deliciar todos nós que deixamos cair o queixo a ver genialidade a manifestar-se.

Brett Morgen notou-se, ainda assim, que procurou mostrar uma boa imagem de Kurt Cobain, o rapaz querido e que tentava, a todo o custo, que a filha tivesse uma boa vida e que a mulher fosse amada por uma América que não a queria nos caminhos do seu ídolo. São mais de duas horas de um filme que pára com o ecrã a negro e uma simples frase escrita a dar conta da morte do líder dos Nirvana em 1994. Nada mais aqui entra. Nem suspeitas, nem revelações, nem imagens, nem pormenores.

O DVD tem distribuição da Universal.

DVD Universal – Cobain Montage of Heck
DVD Universal – Cobain Montage of Heck

Trabalho feito por Daniela Azevedo para o extinto site do grupo Media Capital Rádios: Cotonete – Música e Rádios Online

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