Capitão Falcão – o primeiro super-herói português

Capitão Falcão: «Agora sou comunista, detesto tudo o que é bom!»

Capitão Falcão é, talvez, das mais divertidas e inteligentes sátiras feitas a um período da História recente de Portugal sobre o qual nem todos se atrevem a falar livremente quanto mais brincar com ele: o regime Salazarista. Portugal, afinal, sabe rir de si próprio e isso é fundamental para não perdermos totalmente o respeito pelo nosso país nestes dias conturbados que nos tem oferecido. Os mais jovens talvez se divirtam com as muitas coreografias de pancada onde não há o pretensioso esforço para disfarçar o baixo orçamento que, de resto, até confere com o ambiente do Portugal dos anos 60 ali tão bem recriado. A referência aos Power Rangers também não lhes passa despercebida e na memória fica a gargalhada sonora quando o ecrã enche com o zarolho “Capitão Preto”. Aliás, o filme merece ser visto uma segunda vez na tentativa de lhe apanhar alguns pormenores que, de certeza, me escaparam na visita ao cinema desta semana (by the way, obrigada ao SAPO).

Aos que dizem que “Capitão Falcão” tem cenas de chapadaria muito longas, vão ver o “Velocidade Furiosa 7” e talvez percebam que até aqui “Capitão Falcão” está a ser trendy. Os da minha geração são os primeiros a rir com as sátiras ao papel secundaríssimo que a mulher portuguesa ocupava na sociedade, mãe primorosa e recatada que, coitada, «não tem condições para aprender técnicas de auto-defesa», com a crítica religiosa: «ateus demoníacos», ou até com o “boneco” comunista: «agora sou comunista, detesto tudo o que é bom!». Para nós, o filme vai ser referência obrigatória em inúmeras e desejadas noites de galhofa nos anos vindouros.

Note-se a alfinetada discreta de João Leitão a recriar os sólidos “três F’s” com que Portugal da ditadura de Salazar se identificava: Fátima (nas múltiplas referências visuais ao universo católico), Futebol, com a referência a Eusébio, ficando a faltar-lhe o Fado. Há já quem diga que João Leitão talvez não seja fã daquela que é considerada a canção portuguesa por excelência. Por mim merece à mesma o aplauso, por tudo isto e, também, por tão bem ter escolhido o ‘Ele e Ela’ de Madalena Iglésias, de 1966, para nos lembrar o espaço temporal em que o filme decorre. A ver outra vez de tanto querer beber deste humor.

Capitão Falcão: «Agora sou comunista, detesto tudo o que é bom!»
Capitão Falcão: «Agora sou comunista, detesto tudo o que é bom!»

Daniela Azevedo

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