Anastacia: ela faz o que quer com a voz

Anastacia no Campo Pequeno, Lisboa, a 23 de outubro de 2014, fotografada por Nuno Fontinha

A noite de hoje assistiu à passagem pelo Campo Pequeno, em Lisboa, da Resurrection Tour de Anastacia que vem na sequência da segunda batalha da multipremiada cantora e compositora americana contra o cancro da mama e que a obrigou a uma dupla mastectomia. O álbum que deu origem a este concerto foi composto durante o tratamento e recuperação de mais um “ataque” da doença e músicas como ‘Heavy On My Heart’, de 2003, ‘Pieces of a Dream’, de 2005, ou ainda ‘Stay’, deste ano, são o reflexo de mais uma etapa vencida. Sendo que as batalhas não são propriamente uma novidade na vida da artista (aos 13 anos foi-lhe diagnosticada doença de Crohn – uma grave inflamação ao nível do intestino), as suas canções continuam a inspirar milhares de fãs portugueses, pelo menos a avaliar pelo Campo Pequeno que, mesmo não estando esgotado, estava bem composto ela sua fanily (a forma carinhosa como trata os fãs).

Anastacia não é uma artista como as outras. Anastacia não precisa de brilhos extra, de adereços de plástico, de manobras de vídeo, de bailarinas maquinais, nem de encenações hollywoodescas. Anastacia é real, é de carne e osso, é força tribal, sem adornos, é natureza em estado puro e o seu concerto foi assim: simples, comovente, onde só houve espaço para aquela voz de contralto, grave e aguda numa mesma frase, divertida e sombria numa mesma intervenção. «It’s all about the music», já antecipava ela ontem, à chegada ao aeroporto de Lisboa, no meio da multidão e das bagagens, com a simplicidade que nunca perde e tanto encanta, na mensagem que hoje reforçou em palco.

Tudo começa com ‘Left Outside Alone’, o grande êxito do álbum homónimo de 2004 e logo a sair o novo ‘Staring at the Sun’, uma das canções que faz jus à assinatura de Anastacia – o seu sprock – soul, pop e rock, mostrando que está pronta para voltar aos tops. A cantar sempre perto do microfone, para que a respiração comprove a autenticidade do registo. A singularidade do espectáculo de Anastacia começa logo aqui quando, ao fim do segundo tema, já está a apresentar os «super-músicos» que a acompanham. E segue-se ‘Sick and Tired’ que em 2003 os críticos de música consideraram r&b experimental.

O público parecia estar ansioso pelo que aí vinha, daí que foi fácil deduzir que os créditos de Anastacia seriam muito bem-vindos neste regresso a Portugal, depois da actuação de 2011, no Porto, e de em 2012 ter estado no Festival Marés Vivas.

A brincadeira e boa disposição pautaram boa parte da noite. Quando um fã lhe atira um cachecol… dela própria, Anastacia responde: «Toma lá, isto é teu, foste tu que compraste… Queres dar-mo?», pergunta, enquanto começa a limpar o suor ao lenço antes de o devolver à pessoa. De referir que a artista recebeu “brindes” tão estranhos em palco como um pacote de salgadinhos, por exemplo, que simpaticamente guardou. A fanily, já se sabe, é de importância fulcral para a americana, de 46 anos, que deu a oportunidade aos admiradores portugueses de lhe fazerem perguntas, previamente, que estavam guardadas em pedacinhos de papel que ia tirando ali, ao vivo, de uma caixa. E no primeiro papel, vem a pergunta: «Quando vais casar outra vez?», a que Anastacia respondeu com muita graça: «Não sei… Se isto já correu mal uma vez porque hei-de repetir? Mas não sei… uma pessoa sabe lá quando vai casar? Podemos namorar primeiro?». Antes do concerto avançar para o nível seguinte de intimismo, saem mais perguntas da caixa e a última é: «De onde te vem tanta força?» a que ela responde, em português: «De vocês!»

E aqui começa a mais introspectiva viagem que a cantora alguma vez terá feito através das letras das suas músicas com ‘Heavy on My Heart’ e o comovente ‘Stay’, um dos mais tristes momentos do espectáculo, a provocar aquele nó na garganta difícil de suportar sem uma expressão facial que o testemunhe. Neste tema Anastacia desfia palavras de uma forma tão honesta que o seu coração é-nos completamente exposto.

A arte de Anastacia tem como princípio essencial o sprock, a tal mistura de soul, pop e rock, no entanto, limitar o seu trabalho a essa sonoridade traz alguns riscos. Como por exemplo, o risco de se perder todo oempowerment que esta mulher nos dá quando canta ‘Back in Black’ dos ácidos AC/DC, ou ‘Sweet Child O’Mine’ dos descontrolados Guns n’ Roses dos anos 90.

‘Lifeline’, curiosamente um dos poucos temas do novo álbum que não é da sua autoria, ajudou a abrandar o passo antes de, a ela, se juntarem as duas backing vocals que, lá está a diferença para com ‘as outras’, não são apenas vozes de coro: são, juntamente com Anastacia, as Sprockettes a quem chama de «sexy divas».

Com considerável fogosidade, a cantora consegue reproduzir momentos de verdadeira mestria vocal, sem qualquer esforço, como na doce ‘Broken Wings’, na afirmativa ‘Stupid Little Things’ e em ‘Evolution’, ambas deste ano.

Boa parte do concerto é composta por baladas e é por isso que o álbum “Resurrection” ganha muito mais ao vivo mas claro que não podiam faltar as canções que a notabilizaram como ‘Paid My Dues’, ‘One Day In Your Life’ e ‘I’m Outta Love’, o que, tudo junto faz com que a digressão seja mais do que um sólido esforço de regressar às luzes da ribalta.

O mundo pode não ter mudado mas o mundo da Anastacia recompôs-se e o de quem gosta de autenticidade nas coisas está mais seguro depois desta visita.

Anastacia no Campo Pequeno, Lisboa, a 23 de outubro de 2014, fotografada por Nuno Fontinha
Anastacia no Campo Pequeno, Lisboa, a 23 de outubro de 2014, fotografada por Nuno Fontinha

Trabalho feito por Daniela Azevedo para o extinto site do grupo Media Capital Rádios: Cotonete – Música e Rádios Online

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