Blind Zero nas Noites Ritual: rock por fora; grunge por dentro

Blind Zero foram os cabeças de cartaz de uma das Noites Ritual 2014

Os Blind Zero e David Fonseca foram os convidados especiais de mais uma edição, a 23ª, do festival portuense Noites Ritual no qual, durante duas noites, o Pavilhão Rosa Mota acolheu rock made in Portugal. As primeiras partes de ambas as actuações foram asseguradas por projectos recolhidos ao longo do concurso Rituais Emergentes.

O “dilúvio” que se abateu no Porto na quinta-feira fez temer o pior mas na sexta-feira a noite amena e a Feira do Livro que se realizou nos Jardins do Palácio de Cristal convidavam ao prolongar do passeio ao ar livre com a paisagem nocturna do Douro no enquadramento. «Não foi dos melhores anos, sabe? Ainda se sente muito a crise mas não nos podemos queixar, para o ano há-de ser melhor», dizia-me a responsável de um dos stands da feira, com a natural afabilidade com que a Invicta nos recebe.

Às 22h30 os Crawlers, da Maia, começaram a fazer vibrar as bancadas do Pavilhão Rosa Mota e asseguraram quase uma hora de punk rock bem pesado, num som até talvez demasiado alto, mas que aqueceu bem o público mais jovem com os temas tirados do EP e do álbum de estreia, “No Rest For The Vicious”, que gravaram recorrendo ao crowdfunding. A actuação dos Crawlers contou com alguns convidados em palco, sendo que, David Lobão, dos Bisonte, provou ser bastante acarinhado pelo público.

Uma hora depois, e com a sala já quase cheia, fãs, amigos, um grupo de gente que vem dos arredores do Porto ou que os vão seguindo sempre que podem vindos de vários pontos do país, juntaram-se com um propósito comum: ver, ouvir, curtir e cantar os parabéns aos Blind Zero que festejaram as duas décadas de carreira “em casa”. Vi os Blind Zero pela primeira vez em 1996, numa altura em que a juventude nos dava ganas de mudar o mundo com base na tareia, daí que a expectativa de assistir à actuação do, agora, grupo de homens feitos e pais de filhos, fosse grande.

A estrada que percorreram em 20 anos deixou-lhes marcas douradas nos pés num percurso que, visto a esta distância, parece ter sido planeado e bem sustentado nas sementes que lançaram há 20 anos. Mais que não seja, pela quantidade de “primeiras vezes” que têm no seu palmarés. Em 2003 os Blind Zero foram convidados pela MTV para realizar, em Milão, um “MTV Live”, o primeiro gravado por um grupo português num concerto que teve honras de abertura na apresentação da MTV Portugal. No final desse ano, na cerimónia de entrega de prémios do MTV Europe Music Awards, realizada em Edimburgo, os Blind Zero venceram a categoria Best Portuguese Act. Foi a primeira vez que a MTV atribuiu um prémio a uma banda portuguesa. Ainda nesse ano os Blind Zero foram eleitos a melhor banda ao vivo. Mais tarde, já com “Luna Park” a suavizar o grunge dos primeiros tempos, foram os rapazes da primeira banda portuguesa a actuar pendurados no ar. A canção ‘Shine On’ foi escolhida pela Playstation para publicitar o jogo “Tekken 5” e, guess what?… foi também a primeira vez que tal aconteceu com uma banda portuguesa. Já agora, é preciso dizer que também foram a primeira banda de rock cantado em inglês a atingir o galardão de ouro em Portugal.

‘Shine On’ foi o tema que abriu o concerto que, precisamente por ser o do assinalar de uma efeméride, passou em revista algumas das músicas mais marcantes da carreira da banda. Se temas como ‘Big Brother’ ou ‘Recognize’ nos apresentam uns Blind Zero mais crus na abordagem musical e lírica, os melódicos ‘Snow Girl’, ‘High and Low’ e ‘Slow Time Love’, dos dois álbuns mais recentes, põem o público a cantarolar de olhos postos no palco.

Mestre no domínio dos múltiplos papeis que socialmente representa e assume (desde comentador desportivo a júri de um programa de talentos passando, com alguma frequência, pelo activismo político), o vocalista, Miguel Guedes, nasceu para o palco, um terreno que tanto lhe serve para mostrar um lado mais intimista, com ‘Tree’, por exemplo, totalmente da sua autoria, como para nos lembrar que vida é carne, nervo e sangue a pulsar em ‘I See Desire’ ou na sensacional versão de ‘Tainted Love’ com que nos brindou.

No decorrer do concerto percebe-se que cada um dos membros do grupo tem um gozo especial quando guitarras, teclas, baixo e bateria recuperam os temas mais antigos. Aquela alma grunge está lá toda e a sua influência continua (e ainda bem!) a deixar rasto nos Blind Zero de hoje. Num desses momentos altos Miguel Guedes atira-se para o chão, esmagado pela força da brutal entrega à música, para se levantar dois segundos depois e inscrever a palavra “memorável” nesta passagem pelo palco onde já tocaram noutras ocasiões mas afinal, justifica-se: «São 20 anos, porra!», desarma o cantor, sem esquecer os agradecimentos à autarquia, a entidade promotora do evento.

Já no encore, ‘Secret Places’, também do mais recente “Kill Drama”, deu vontade de transformar o Rosa Mota, que por si só já nos remete para o ambiente das matinés dos anos 90, num cenário de isqueiros acesos que foram substituídos pelas pulseiras luminosas que a organização distribuíra no início dos espectáculos.

As grandes bandas são assim: crescem, evoluem, transformam-se e os Blind Zero, que nos acompanharam as dores de crescimento de borbulhas na cara e camisa de flanela à cintura, enquanto muito provavelmente também lambiam as próprias feridas, continuam connosco e a mostrar-nos que o rock tem sempre uma mensagem a transmitir. Os Blind Zero não “estão para durar”. Estão para deixar uma valente marca na história do rock nacional e têm, definitivamente, algo de fresco e novo para continuar a dar.

Na noite de sábado, os concertos que encheram o Rosa Mota foram os de O Incrível Homem Bomba e David Fonseca, figura de que já muito se falava na véspera. O músico de Leiria interpretou músicas dos álbuns “Seasons: Rising”, onde mostrou o seu lado mais rockeiro, e “Falling”, o seu lado mais resguardado e emocional.

Blind Zero foram os cabeças de cartaz de uma das Noites Ritual 2014
Blind Zero foram os cabeças de cartaz de uma das Noites Ritual 2014

Trabalho feito por Daniela Azevedo para o extinto site do grupo Media Capital Rádios: Cotonete – Música e Rádios Online

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