Pedro Abrunhosa: o attachment de uma alma feliz

Pedro Abrunhosa no MEO Arena, em Lisboa, a 7 de fevereiro de 2015, fotografado por Nuno Fontinha

A frase é um lugar-comum; já foi dita, parodiada e até explorada comercialmente vezes sem conta mas resume uma situação verdadeira e sempre assinalável nas nossas vidas: há sempre uma primeira vez. Há sempre a primeira vez em que não sabemos onde estão os nossos bilhetes minutos antes de começar o concerto que escolhemos ver. Há sempre a primeira vez em que vamos fazer com que toda a nossa fila se levante mesmo quando temos a certeza que isso nunca nos vai acontecer porque detestamos incomodar os outros quando estão a ter “o seu” momento. Há sempre a primeira vez em que subimos ao palco do Meo Arena e podemos ver milhares de fãs como nós a ocuparem todos os lugares disponíveis e sentimos o calor dos holofotes a arder-nos na pele. Há sempre a primeira vez em que o músico que nos habituámos a ouvir há 20 anos nos devolve o brilho inocente num olhar a transbordar de esperança num tal caminho cheio de luz de que nos fala. Há sempre a primeira vez em que um músico vai quebrar todas as “regras” (existirão, de facto?!) convencionadas de que os fotógrafos só podem disparar durante as três primeiras faixas e a muitos metros de distância. Há sempre a primeira vez em que percebemos que um abraço pode, mesmo, ser a força que nos move adiante.

E o concerto de Pedro Abrunhosa esta noite no Meo Arena, em Lisboa, foi todas estas primeiras vezes e tantas outras para cada um de nós porque a experiência de algo tão intenso como aquilo que o músico nos deu neste espectáculo não pode ser generalizada, descrita num alinhamento de canções corridas e escolhidas com um propósito fundamentado em questões racionais. Porque “Inteiro” é, realmente, muito mais que um concerto de apresentação do mais recente álbum “Contramão” e está uns passos mais adiante que um concerto de celebração dos 20 anos de “Viagens” embora tenha tido ‘Voámos em Contramão’, ‘Toma Conta De Mim’, ‘A.M.O.R.’, ‘Senhor Do Adeus’, que abriu o espectáculo propriamente dito depois da intro instrumental que deu sinal para a entrada de músicos em palco, e ‘Hoje É O Teu Dia’, que acompanhou aquele que, para mim, foi um momento inédito em concerto: ao sexto tema do alinhamento, Pedro Abrunhosa convida os fotógrafos profissionais que ali estão a trabalhar para se juntarem a ele em palco, subirem, circularem à vontade e tirarem as fotografias que quiserem com o ângulo, abertura de óptica, distância focal e ISO que bem lhes apetecer.

Com a interpretação de ‘Pontes Entre Nós’ continua o arrojo de chamar, desta vez, os fãs que com ele quisessem cantar o tema também no grande palco. Há enchente mas há também a sua mensagem; talvez das frases políticas mais emblemáticas proferidas a seguir ao 25 de Abril no reforço de que nada abalaria a tenra democracia do país: «Calma, o povo é sereno». ‘O Melhor Está Para vir’ mostra-nos a faceta humana, muito humana que o cantor tem e debaixo da qual nos apresenta a Associação “Mundos de Vida”, de Vila Nova de Famalicão. Também houve lugar à saudade manifestada por Jorge Sousa, o técnico, colega de estrada e o amigo que homenageou com ‘Toma Conta de Mim’ pela «tenacidade, luta e bondade». A mensagem de intervenção social ainda se ouviu na referência aos atentados ao “Charlie Hebdo”, que antecederam a sua chegada ao Olympia de Paris e que lhe motivam, no imediato, reacções que o próprio Cotonete testemunhou, na sua página oficial de Facebook. ««Não acredito que haja deuses que matam pessoas que fazem desenhos», reforçou aqui.

Pedro Abrunhosa foi o músico que chocou Portugal por, depois de ter feito um disco tão intrigante, tão inédito e tão refrescante como o “Viagens”, logo a seguir ter tido o arrojo de pôr o país a cantarolar muito entre-dentes ‘Talvez Foder’, aquela que é, afinal, a mensagem menos pornográfica da canção mas também aquela que, se dúvidas houvesse que Pedro Abrunhosa vinha para agitar consciências, ficassem definitivamente esclarecidas a cada sussurro de «quem é o tipo que anda a cantar isto?». Pedro Abrunhosa foi o músico que pôs um Portugal inteiro a querer saber quem é ele? Porque veste aquilo? Porque faz aqueles gestos? Porque tem aqueles óculos? Porque fala assim e se acorrenta a si próprio em defesa de uma cultura que já quase se aceitou que não tem lugar no pelotão da frente dos interesses de quem gere o país? Pedro Abrunhosa foi tudo isto mas hoje é um músico de excelência cuja formação rígida de conservatório misturada com a sua abertura para o «impossível» de tornar interessantes os ensinamentos que tirou das pautas amareladas de classicismo excessivo, o transformaram num elixir auditivo que eleva o patamar daquilo a que passamos a designar por música de qualidade. É o compositor que nos embriaga no poderoso poder de um amor que não tem deus nem guia mas tem expressão no mais profundo do nosso Ser.

É justíssimo dizer que Pedro Abrunhosa conta com a mestria de uns tantos outros músicos que, com ele, fizeram a magia acontecer esta noite, tanto pelos Comité Caviar, a banda que o acompanha presentemente, como pelos Bandemónio que inscreveram o seu nome na história da música portuguesa a tinta permanente ainda no início da sua carreira pública. Mário Barreiros, Pedro Martins, Paulo Praça, Miguel Barros, Edgar Caramelo e Cláudio Souto e outros nomes como a backing vocal Diana Martinez e Camané que dá voz e arrepio extra aos temas ‘Para Os Braços da Minha Mãe’ e ‘Ilumina-me’.

20 anos de Pedro Abrunhosa também foi ‘Viagens’, ‘Não Posso +’, ‘Socorro’, ‘É Preciso Ter Calma’, ‘Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar’, ‘Eu Não Sei Quem Te Perdeu’, que atinge o estatuto de «canção que não vai faltar se tivermos de ir para uma ilha deserta e só levar mais dúzia de items essenciais à sobrevivência» e ‘Tudo o Que Eu Te Dou’, com as vozes já veladas pela muita emoção do público que foi incansável e esteve em perfeita harmonia com Abrunhosa o tempo todo.

Mais do que saber gerir as reacções dos milhares de fãs que ali estiveram, Pedro Abrunhosa comportou-se como um cirurgião de emoções. Aquele que abre a carne e deixa o sangue jorrar para a seguir nos pegar na mão e garantir, seguro, que tudo não passou de um pesadelo. Porque a sua música escreve a trama dos dias perfeitos em que metemos a chave à porta de uma casa fria de silêncio e nos deixamos aconchegar naquele colo secreto que todos nós temos, com a certeza de que é assim que está tudo bem.

Pedro Abrunhosa no MEO Arena, em Lisboa, a 7 de fevereiro de 2015, fotografado por Nuno Fontinha
Pedro Abrunhosa no MEO Arena, em Lisboa, a 7 de fevereiro de 2015, fotografado por Nuno Fontinha

Trabalho feito por Daniela Azevedo para o extinto site do grupo Media Capital Rádios: Cotonete – Música e Rádios Online

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