Filosofia e barquinhos de papel

O filósofo Norman Malcolm estabelecia, em 1977, um paralelismo entre a memória humana e os computadores para justificar o porquê de alguns momentos nos ficarem tão vivos e tão coloridos, resistindo à passagem dos anos, enquanto outros parecem ter sido assoprados, como aparas de borracha, para fora da grande secretária que é o nosso cérebro.

Dizia Malcolm que o que torna uma memória viva é a quantidade de vezes a que ela recorremos, ou seja, haver um constante recurso à área de armazenamento do nosso computador faz com que determinada situação não se esbata. Houvesse Internet (como hoje a conhecemos) há 38 anos e seria semelhante à informação que os nossos aparelhos guardam em cache; um histórico, mais ou menos preciso de acordo com o número de vezes que consultamos determinado site. A minha memória guarda experiências na forma de imagens e… sentimentos.

E é assim que tenho a imagem da cozinha dos meus avós. A porta dava para o quintal e se a avó ensinava a ler e a escrever e o avô ensinava a fazer contas, também era a avó que dizia que tinha que largar a bicheza, lavar as mãos e fazer qualquer outra atividade mais “caseira” a seguir. Aquilo de ter que estar constantemente a lavar as mãos aborrecia-me um bocadinho mas nesse entretanto, antes do jantar, o avô encontrava sempre maneira de prolongar um bocadinho a brincadeira. Ensinou-me a jogar às cartas, a rodar o pião, fez-me um microfone de madeira e entretinha-me a fazer barquinhos de papel. Podia não ser útil, estragavam-se depois de eu os tentar pôr a navegar, mas faziam sempre belas embarcações cheias de cores e dos mais diversos tamanhos. Claro está que décadas se passaram e se a memória sensorial continua ativa, a da feitura dos barquinhos já não. Ou melhor, não estava.

Recentemente, nesse antro de conhecimento de gente interessante e cativante que foi o ICT 2015, reparei na criatividade que um dos stands teve para levar os visitantes a apanharem um dos seus folhetos: estavam dobrados em barquinhos. Não hesitei, trouxe um, não sem antes lamentar que já não os conseguisse fazer.

Daí a ter alguém que me pôs a rebolar no quentinho das mantas destas memórias foi um salto de poucas semanas. Pode parecer um simples barquinho de papel mas é muito mais que isso. Se sou um pedaço de todos os ensinamentos, da passagem e da existência de pais e avós na minha vida, então posso dizer que vivi em 2015 uma nova vertente desse mimo de avô, o lado bom de termos com alguém uma cumplicidade mágica, que nos atulha de momentos de diversão bem vividos, numa espécie de ponto de convergência entre duas gerações separadas por trinta anos. Não é preciso uma habilidade especial, não é preciso ser-se cosmonauta ou geógrafo de primeira para se saber fazer um barquinho de papel. Mas o meu avô sabia fazer. Eu soube e esqueci-me. Eu soube e hoje um amigo, que também não é cosmonauta nem geógrafo de primeira, avivou-me essa memória de infância sabendo que estava a pegar numa criança ao colo.  E é disto que são feitos os bons amigos. Cúmplices e unidos.

Barquinhos de papel
Barquinhos de papel

Daniela Azevedo

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