Sorrindo carismática e afetuosamente a todos os que a ela se aproximam, Ana Gomes é a doçura em pessoa e a convicção em palco.
Ana Gomes é uma jovem cantora de jazz, ex-elemento da banda Fado in Bossa com o maestro Uriel Varallo. Depois de ter feito a primeira parte do concerto de Marisa Monte e Carminho, a 27 de julho de 2016, no edpcooljazz, a cantora de voz com sabor a mel já lançou o seu álbum de estreia a solo, “Balanço”. O disco tem dez temas com composição de Tozé Brito e os produtores eleitos foram o pianista de jazz André Sarbib e o guitarrista Cláudio César Ribeiro que ajudaram a transformá-las em smooth jazz, cantado em português.
Aos 16 anos, Ana Gomes teve a sua primeira experiência discográfica com os Caminhos D’água. Foi aí que que se estreou na televisão e em concertos a solo. Estudou jazz, bossa nova e musicoterapia. No início de 2014 foi lançado o álbum dos Fado in Bossa que conquistou ouvintes por todo o mundo. No decurso da carreira musical, Ana Gomes conheceu o músico e compositor Tozé Brito. Daí até nascer uma amizade foi um passo curto mas cimentado, agora, nas composições do atual diretor da Sociedade Portuguesa de Autores.
Passadas as euforias de verão, o disco da cantora bracarense vai merecer a devida atenção em apresentações ao vivo, quando os dias estiverem mais pequenos mas continuarem surpreendentes e generosos nas descobertas que havemos de fazer indoor. Se as cores e os aromas nos convidarem à contemplação de algo realmente calmo, “Balanço” é o disco que se põe a tocar enquanto almoçamos juntas e vamos, com Tozé Brito, fazer uma visita à SPA. E assim nasce uma amizade.

Daniela Azevedo – “Balanço” é o teu álbum de estreia a solo. Como o podemos designar?
Ana Gomes – Este álbum fala, essencialmente, sobre amor e eu gosto muito de me referir a ele como uma peça de amor. Penso que é por isso que está a funcionar tão bem! Fala de um amor romântico, particularmente, e escolhemos os temas a pensar nisso mesmo, mas gosto de pensar nele como uma peça de amor.
DA – Esta opção de cantar smooth jazz no teu álbum de estreia a solo, sentes que é para continuar?
AG – Sim. Essa opção é a que mais me caracteriza como intérprete. Este smooth jazz resulta de várias influências que fui bebendo ao longo do tempo e é, sem dúvida, algo de que eu vou gostando particularmente.
DA – Quem são essas grandes influências musicais na tua vida?
AG – São, sem dúvida, as grandes vozes clássicas do jazz mas não posso deixar de fazer referência a outras vozes como Stacey Kent, Marisa Monte e a rainha Elis Regina, da MPB, todas elas me foram influenciando. Também não posso deixar de referir o fado-canção e todas estas misturas resultaram um pouco naquilo que sou e transmito ao público.
DA – O fado marcou-te bastante no início da tua carreira. Nesta altura podemos dizer que ficou arrumado no passado ou é um género a que poderás voltar?
AG – Neste momento não penso voltar ao fado. O fado tradicional nunca foi o que fiz, embora tenha pegado, no início, em temas de fado para os transformar em fado-canção mas já com um misto de bossa-nova e smooth jazz.
DA – E pelo meio do teu percurso conheces o Tozé Brito. Como foi?
AG – Foi uma grande alegria para mim porque eu cresci a ouvir Tozé Brito [risos] e de repente ele torna-se numa pessoa maravilhosa na minha vida, que aceita que eu grave os temas dele, além de participar comigo no álbum. Ele faz parte, a sua voz também lá está e é um grande privilégio para mim.
DA – Inicialmente, o Tozé Brito deu-te a escolher entre 500 canções e tiveste que optar por menos de dez. Qual foi o critério usado?
AG – Não foi fácil, confesso que não ouvi as 500 e ele sabe disso [risos]. Essencialmente, o Tozé deu-me um CD com as músicas dele e um livro espetacular com as suas composições. Acabámos por fazer a triagem em conjunto centrando-nos nesta peça de amor. Há um tema de que eu gosto imenso no álbum, o ‘Já Se Faz Tarde’, que eu queria eleger para este setembro quente porque conta uma história de amor maravilhosa.

DA – Tozé Brito, como foi conhecer a Ana?
Tozé Brito – Foi uma surpresa enorme porque eu não estava à espera que alguém tivesse esta ideia de gravar um álbum só com canções minhas, que eu escrevi ao longo destes anos. Quando falei pela primeira vez com a Ana percebi que ela era uma pessoa muito mais nova que eu. E fiquei a pensar “como é que uma pessoa desta geração conhece as minhas canções e as quer cantar?”. Depois percebei que ela cresceu a ouvir-me, através dos pais, mas tinha que haver empatia entre ela e as minhas canções porque, naturalmente, há muita gente que cresceu a ouvir as minhas canções e hoje ouve outras! [risos]. Mas por alguma razão ela ficou com a ideia de as adaptar e para mim foi uma surpresa muito agradável porque a Ana é um doce, canta bem, tem bom gosto musical e escolhê-las não foi difícil porque das 500 canções há talvez umas 80 de onde poderiam sair as finais. Há questões importantes; as canções são escritas a pensar em intérpretes em particular e eu sou assim, não escrevo para a gaveta. Escrevo para o Carlos do Carmo, para a Simone de Oliveira, para o António Zambujo ou para a Ana Moura e, quando o estou a fazer, estou a pensar em cada um deles e não têm nada a ver umas composições com as outras. Havia canções adultas e pesadas demais e para ela tinham que ser mais leves. A escolha foi um trabalho conjunto e depois fiquei a ver no que dava. E deu numa coisa muito boa, acho que o “Balanço” é um trabalho lindíssimo e está muito bem conseguido.
DA – Qual foi o conselho chave que lhe deu e que tem a certeza que a Ana tem usado na sua carreira?
TB – Em primeiro lugar, que tente nunca descaracterizar a sua forma de cantar; acho que seria um crime obrigar-se a cantar de uma forma que não seria a dela. Depois, que não leve as coisas demasiado a sério, porque a música tem que ser prazer, não deve ser stresse. Cantar é como respirar, que cante leve e despreocupada, gostando do que está a fazer, independentemente de ter uma reação mais ou menos calorosa por parte do público, porque há dias em que somos muito bem recebidos, noutros não nos ligam, bebem copos, viram-nos as costas e é como se não estivéssemos lá. O segredo é cantar como se o estivéssemos a fazer para nós, para os nossos amigos e para os músicos que estão em cima do palco connosco; é só isto, é assim que funciona e é isto que lhe tenho dito. Claro que é um trabalho de responsabilidade, não vamos para cima do palco brincar com a nossa profissão mas não podemos levar isto demasiado a sério. É fundamental termos prazer em cantar.
Enquanto não nos chega o primeiro vídeo a sair de “Balanço”, vamos recordar, mais abaixo, Ana Gomes com os Fado in Bossa em ‘Fado Tropical’, filmado na zona histórica da sua terra natal, Braga.
