Músculo, maturidade e magia: os três “M’s” de que se fez o concerto dos Blind Zero no Capitólio

Blind Zero no Capitólio a 8 de novembro de 2018

Com 24 anos de carreira, os Blind Zero encerraram a atual digressão de apresentação do mais recente álbum, “Often Trees”, num concerto que decorreu a 8 de novembro no Capitólio, em Lisboa.

Com um percurso ímpar, a banda que venceu o primeiro Best Portuguese Act, prémio da MTV em Portugal, voltou a proporcionar uma autêntica fuga do planeta Terra num concerto onde já é impossível descrever um estilo que se lhes associe: são rock? Blues? Alternativos? Pop? Não interessa; são muito bons, superaram todas as fases confusas e de hesitação, passaram a estar-se nas tintas para os grungers haters e deram um espetáculo imaculado em som, imagem e ambiente de palco. Aliás, contam-se pelos dedos de uma mão em décadas a acompanhar música ao vivo, os elogios públicos feitos ao responsável pelas luzes. Aqui aconteceu e esse foi apenas um dos muitos momentos bons da noite fria e chuvosa de BZ em Lisboa.


Blind Zero no Capitólio a 8 de novembro de 2018

Como seria de esperar, os rapazes do Porto não se ficaram só pelo reportório mais “escuro e denso” de “Often Trees”; recuperaram, sempre com arranjos surpreendentemente diferentes e de crescente qualidade, alguns dos temas mais marcantes do seu percurso, como ‘Recognize’, por exemplo. Vale a pena lembrar que o EP com o mesmo nome saiu em 1995 e esgotou em apenas nove dias, tornando-se uma peça de coleção. Acuse-se, se é um dos sortudos.

Os Blind Zero são hoje um grupo musculado, no sentido de que toda a grandeza que imprimem às suas atuações ao vivo, parece sair-lhes naturalmente. Como se nem custasse fazer nada daquilo. Diz-se que é nesse momento que atingimos o pico da nossa excelência profissional. Pois assim é para eles.

A expressão “momento quase religioso” é muito usada quando queremos descrever, com a devida dose de hipérbole, uma experiência de concerto memorável. Contudo, é a melhor que encontro para descrever os arranjos “capitolianos” que os BZ deram ao tema ‘Tree’, interpretado também numa parte inicial do espetáculo.

Deslumbrados, os fãs foram aplaudindo, várias vezes de pé, essas “pérolas” musicais de que nunca se cansam. Tempos houve em que o fazíamos no meio da lama ou do pó. Hoje, a maturidade de uma banda que sabe o que faz e, melhor que o passado, conhece o caminho do futuro que quer seguir: o de uma mensagem que está longe do shá-la-la amoroso e cada vez mais perto daquilo que é pungente, profundo e sábio. É a maturidade em bom, longe daquela angústia desenfreada e energia febril que outrora nos deixava meio tontos no fim de cada concerto.

‘Shine On’ de “The Night Before And A New Day”, de 1995, e ‘Slow Time Love’, de “Luna Park”, de 2009, são novamente exemplos de canções que perduram e se renovam esplendorosamente. E ainda bem que não deixam de as tocar.

Mais tarde ficou a saber-se que Miguel Guedes estava quase sem voz. Esta é a parte da “magia” do concerto onde, ao subir ao palco, qualquer maleita de que padecesse desapareceu. Além de se manter sempre extremamente bem humorado durante todo o concerto nas suas divertidas interações com o público.

Para o encore ficou a canção com Joe Hamilton, ‘War Is Over’, o único dueto do mais recente trabalho.

A digressão que se despediu em Lisboa, deu a conhecer o oitavo disco de originais da banda e passou pela Casa da Música, no Porto, Coimbra, Arcos de Valdevez, Lordelo, Viana do Castelo, Esmoriz, Montalegre, Santa Maria da Feira, Guimarães, Santo Tirso, Mealhada e Loulé. No final só fica a lamentável reflexão: se os fãs de Lisboa pedem tanto concertos dos Blind Zero na capital, porque diabo não enchem a sala? Vá, saiam lá detrás do teclado…

Mais de duas décadas depois, esta versão acústica ou eletro-acústica dos Blind Zero, mais não é que a banda no seu melhor. Uma espécie de BZ 4.0.

Daniela Azevedo

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