Curtas de Vila do Conde: de Nadav Lapid à Abadessa Berengária

26.ª edição do Curtas Vila do Conde - International Film Festival

Enquanto Lisboa recebia o último dia do cada vez mais intenso festival NOS Alive, seguir para a 26.ª edição do Curtas Vila do Conde – International Film Festival, revelou-se a melhor experiência para começar a abrandar a velocidade antes do tão agendado e ansiado período das férias de verão.

A povoação de Vila do Conde é muito antiga, anterior à fundação de Portugal. A primeira referência a Vila do Conde é do ano de 953 no livro da condessa Mumadona Dias. E só com esta introdução acredito que já dá para perceber que estamos perante uma cidade de encantos infinitos e uma História tão vasta e tão rica que daria um Mestrado por si só. A chegada a Vila do Conde deixa-nos logo boquiabertos pelo excelente estado de conservação do Aqueduto de Santa Clara. Gostei, particularmente, do recurso às árvores para completar os arcos em falta. A praia também foi um belíssimo cartão de visita, já que, ao contrário do que a capital oferece em pleno mês de julho, temos à nossa espera um grande e rubicundo sol, numa praia de areia fina e clara de onde não queremos sair.

 

Natureza, localização e infraestruturas - é tudo bom no areal de Vila do Conde
Natureza, localização e infraestruturas – é tudo bom no areal de Vila do Conde

Mas, ainda antes do “Curtas”, havia a Galeria Cinemática Solar, aberta ao público, com entrada livre, e um conjunto de instalações para ver, a remeterem para o Ser Humano em solitárias e inóspitas viagens interiores.

Nadav Lapid

Mas o que nos trouxe até aqui foi o Festival Internacional de Cinema e a curiosidade por ver parte da obra do cineasta israelita Nadav Lapid – o destaque do “Curtas” deste ano. O filme apresentado foi “Policeman”, de 2011, que se foca na atividade do agente policial Yaron e nas suas dificuldades em gerir e separar a vida pessoal (uma esposa grávida) e a profissional.

A obra cinematográfica traz uma visão urbana e atual de um conflito social, “animada” pela dinâmica de grupo de “polícias e ladrões”. A imagem não é lá muito abonatória dos agentes policiais, cuja ocupação de tempos livres nos é mostrada na primeira meia hora do filme. Esta unidade anti-terrorista de elite contracena com um grupo de jovens militantes de uma força de contra poder que planeia capturar e matar um grupo de bilionários da indústria “exploradora” da classe média. Apesar da grande preparação do rapto, o desfecho é negro para os revoltosos, o que nos coloca sérias questões sobre os inimigos da sociedade e do verdadeiro, sustentável e justo crescimento de uma economia – neste caso, da israelita nos dias que correm.

Do realizador, vale a pena dizer que, em 2016, a curta-metragem “From the Diary of a Wedding Photographer” foi distinguida com o Grande Prémio da Competição Internacional, depois de ter passado, no mesmo ano, pela Semana da Crítica do Festival de Cannes. Trata-se de um retrato sombrio e satírico de um fotógrafo de casamentos, que desenvolve uma obsessão fetichista por noivas. Em “The Kindergarten Teacher”, de 2014, a longa-metragem seguinte que também recebeu vários prémios, Lapid voltou a levantar questões existenciais e morais através de retratos íntimos. Aqui, a trama parte de um encontro entre uma educadora de infância e uma criança-prodígio com especial talento para a poesia.

A paisagem israelita é também um elemento constante nos filmes de Nadav Lapid, desde a curta-metragem de final de curso, “Emile’s Girlfriend”, realizada em 2006, que versa um encontro, que é também um confronto cultural, entre Delphine, uma rapariga francesa, e Yoav, israelita. Além destes, foram exibidas outras curtas-metragens do realizador, numa retrospetiva integral, além de se ter realizado um debate com o próprio a 21 de julho.

Vencedores

“Aquaparque”, de Ana Moreira, foi distinguida como melhor curta-metragem europeia no festival Curtas de Vila do Conde que terminou ontem, dia 22.

O filme “La Chute”, do francês Boris Labbé, venceu o grande prémio do festival Curtas de Vila do Conde.

Na competição internacional, o prémio Manoel de Oliveira para melhor documentário foi para “Madness”, de João Viana, a melhor animação foi “Raymonde ou l’évasion vertical”, de Sarah Van den Boom, e a melhor ficção a concurso foi “Fry Day”, de Laura Moss. O prémio do público nesta competição foi atribuído a “Ce magnifique gâteau!”, de Emma de Swaef e Marc James Roels.

Na competição nacional, o galardão para melhor filme foi dado a “Onde o Verão Vai (Episódios da Juventude)”, de David Pinheiro Vicente, enquanto o prémio do público foi para “Entre Sombras”, de Alice Eça Guimarães e Mónica Santos.

O melhor vídeo musical foi para João Pombeiro, com “Back to Nature”, de Nightmares On Wax, enquanto na competição experimental venceu “Another Movie”, de Morgan Fisher. “O Rato da Floresta”, de Jeroen Jaspaert, ganhou o prémio Curtinhas, eleito por um grupo de 15 crianças com idades entre os oito e os 12 anos.

Entre outros galardões, o festival anunciou ainda que o prémio Agência da Curta-Metragem foi para “Amor, Avenidas Novas”, de Duarte Coimbra.

Património histórico e religioso de Vila do Conde

Conhecer bem Vila do Conde é objetivo que tem de ficar em branco até às próximas oportunidades. Num único fim de semana é impossível conhecer, com deleite e detalhe, o vastíssimo património histórico e religioso de Vila do Conde. Em traços gerais, e com uma visita guiada que começou na Barcearia, ficamos a saber que D. Teresa Martins e o seu esposo Afonso Sanches, filho ilegítimo de D. Dinis, fundaram o Real Mosteiro de Santa Clara, em 1318.

A Praça Nova, hoje Praça Vasco da Gama em memória aos muitos portugueses que tiveram um papel ativo nos descobrimentos portugueses, foi aberta em 1538, no reinado de D. João III, e ali nasceu o edifício para os Paços do Concelho. No século XIX, as Invasões Francesas causaram grandes danos à população. Em 1987 a Vila é elevada à categoria de cidade.

Com tanto por saber e estudar, dá até vontade de ir pegar nos velhinhos livros de História do 7.º ao 9.º ano. Ainda assim, confesso que estou completamente rendida à Lenda da Abadessa Berengária que, qual Queen B. dos tempos modernos, pôs toda uma população de religiosas, vivas e mortas, a prestarem-lhe vassalagem.

Conta-se que, “naquele tempo”, o Convento de Santa Clara de Vila do Conde era povoado por um conjunto de monjas que não tinham propriamente grande brio nos seus trabalhos e eram, no geral, pouco zelosas e um tanto ou quanto coscuvilheiras. Havia, todavia, uma exceção: a irmã Berengária. Humilde, cumpridora, inspirava-se nos exemplos das Clarissas e executava com alegria mesmo as tarefas mais frívolas.

Quando a abadessa faleceu, foi necessário eleger a sucessora. Entre as muitas interessadas no cargo, que dava autoridade e visibilidade social, não estava a pouco vistosa Berengária. Por isso, na hora de ir a votos, cada uma das eleitoras, para que as parceiras não acedessem ao abadessado, votou no nome menos provável para o cargo – a Berengária – pensando que o poder jamais seria entregue a tal figura. Contudo, quando a irmã Berengária foi eleita de acordo com as regras, decidiu aceitar o cargo, mesmo que não sonhasse com ele. Gerou-se uma onda de rebeldia tal que a nova abadessa teve de ser firme e ousada: ordenou que as suas antecessoras, que ali jaziam sepultadas, viessem prestar-lhe a homenagem de obediência que as freiras vivas recusavam. Eis então que as antigas abadessas se ergueram das sepulturas e ali se mostraram em atitude respeitosa. No final, as monjas ter-se-ão assustado e, com o arrependimento, acataram a autoridade da nova abadessa.

Ainda que o milagre seja uma lenda, a verdade é que a dita Abadessa Berengária geriu o convento de 1384 a 1406. No Convento de Santa Clara a lenda é replicada numa tábua, por escrito, e numa tela.

A visitar

A grande noite do ano em Vila do Conde é a de São João. O ponto alto das festas decorre a 23 de junho, véspera de feriado municipal.

Noutras alturas do ano é absolutamente imperdível (e, no meu caso, inadiável) a visita ao Mosteiro e igreja de Santa Clara, ao Centro de Memória e ao Museu de Construção Naval, que recupera a memória do estaleiro onde foram construídos muitos dos navios que contribuíram para o desenvolvimento da cidade.

A réplica da Nau Quinhentista está à vista de todos, na margem do Rio Ave, onde também nos podemos demorar a apreciar a estátua que homenageia as rendilheiras da renda de bilros.

Sobre a construção naval, era tal a sabedoria dos artífices vila-condenses que muitas embarcações eram encomendadas pelos monarcas para serem construídas exclusivamente ali. O século XVI foi muito bom para Vila do Conde e foi nessa altura que a vila prosperou.

Neste momento, a cidade está a meio de uma candidatura à UNESCO para integrar a lista do património imaterial da humanidade no que concerne à salvaguarda das técnicas de construção naval em madeira.

 

Nas margens do Rio Ave há muita vida cultural e social
Nas margens do Rio Ave há muita vida cultural e social

Também é para ver a Casa Museu José Régio, os diversos painéis de azulejos que surgem nas paredes de edifícios nas pitorescas ruas de calçada, as fontes, a igreja de Santa Maria de Azurara, a igreja de Santa Clara e a igreja de São João Batista ou igreja matriz de Vila do Conde.

 

Centro Histórico de Vila do Conde - do tempo das ruas calmas
Centro Histórico de Vila do Conde – do tempo das ruas calmas

Daniela Azevedo

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