John Gallo quer que Coimbra entre no Guiness: «Acredito num renascimento da velha fotografia»

John Gallo quer entrar para o livro do Guiness

Coimbra quer entrar para o livro do Guinness através de uma aula de fotografia, a realizar nesta sexta-feira, 18 de maio, no Teatro Académico Gil Vicente.

O objetivo é juntar pelo menos 251 formandos para hora e meia de aula ministrada pelo fotógrafo português John Gallo que tem vindo a alimentar a ideia desde janeiro. Para atingir este feito, Coimbra foi escolhida por “razões simbólicas”.

O evento vai começar pelas 18h30, hora prevista para a receção ao público. Meia hora depois, pelas 19h00, inicia a aula e no púlpito vai estar John Gallo, vencedor do Joan Wakelin Award, em 2015, atribuído pelo The Guardian e pela The Royal Photography Society, e com vários trabalhos publicados nos media nacionais.

As inscrições para a aula são gratuitas e devem ser feitas através do e-mail guinness@chappa.pt, indicando o nome completo, a data de nascimento e o endereço de e-mail. No final, os participantes recebem um certificado.

Um evento de fotografia, a realizar em Portugal, e com a pretensão de vir a colocar a cidade de Coimbra no livro do Guiness, pareceu-me uma conjugação interessante demais para passar em branco.

 

Lisbon Blues, por John Gallo, a 16 de Dezembro 2017
Lisbon Blues, por John Gallo, a 16 de Dezembro 2017

 

Daniela Azevedo – Como é que surgiu a ideia de estabelecer este recorde?
John Gallo – Desde janeiro deste ano que temos (Chappa) produzido inúmeros workshops em parceria com a Olympus, no âmbito do Professional Program da marca japonesa. Pensámos que seria interessante produzir a maior aula do mundo, metemos mãos à obra e… vamos ver se conseguimos.

DA – Qual vai ser o conteúdo programático do workshop?
JG – Vou estar no TAGV [Teatro Académico Gil Vicente] durante uma hora meia, dividida em duas partes: na primeira vou falar de interpretação – qual o significado que o fotógrafo pretende dar a uma determinada imagem quando a produz. E nos outros 45 minutos vamos conversar sobre as tendências da fotografia para 2018 e ilustrar com o trabalho brilhante de alguns dos melhores fotógrafos da atualidade. No final, todos recebem um certificado de participação, passando a ser parte integrante do novo recorde. Assim esperamos que aconteça.

DA – Porquê a escolha de Coimbra? Talvez fosse mais fácil reunir os 251 formandos em Lisboa…
JG – Neste momento vamos com mais de 300 inscritos. A escolha de Coimbra tem origem em razões simbólicas. O TAGV e o único edifício teatral universitário do país. Está integrado na Universidade de Coimbra, naquilo que de mais importante, notável e referencial Portugal e o mundo têm no domínio universitário, no domínio da sapiência, do ensino. A Universidade de Coimbra é uma referência desde o século XIII e representa de forma extraordinária a diversidade que caracteriza o nosso tempo, pelo número de alunos oriundos de todo o mundo que a frequenta.

DA – Que recomendações darias a quem quer ingressar no mundo da fotografia?
JG – Coragem, persistência. É uma arte ainda tida como “menor” em muitos meios e locais. Para se conseguir algum reconhecimento é necessária uma enorme dose de perseverança, muito método, escolha criteriosa de temas a trabalhar e, claro, um belíssimo domínio da técnica. Evitem os lugares comuns, interiorizem a fotografia como uma forma de expressão artística individual; usem-na, se entenderem, de forma interventiva.

DA – E ser-se reconhecido com prémios, como já foste, faz parte de um percurso sólido enquanto fotógrafo?
JG – Nunca pensei nisso dessa forma. Talvez faça, ao reconhecerem o valor do meu trabalho também me estão a responsabilizar, presumo que os meus colegas de profissão sintam o mesmo. Esse aumento de sentido de responsabilidade obriga-nos a ser ainda melhores, mais proficientes. Há, contudo, um lado pernicioso nesta estória dos prémios: o sujeito e o ângulo com que o abordamos são determinantes para o resultado final e nem tudo é premiável ou tem perfil para ser candidato a um prémio. Muitos trabalhos, apesar de interessantes, jamais serão premiados e isso pode gerar em alguns clientes um certo amargo de boca.

DA – Consegues eleger o teu trabalho favorito até agora? Foi algum dos premiados?
JG – É sempre o próximo. Aquele em que nos iremos exceder ainda mais, em que seremos capazes de fazer coisas verdadeiramente novas. Estamos sempre cheios de expectativas relativamente a um trabalho que ainda não iniciámos. Por isso, o melhor é sempre o próximo.

DA – As novas tecnologias, nomeadamente a explosão das redes sociais, estão a ser friendly para a fotografia ou nem por isso?
JG – Acho que não. Abastardaram a fotografia, em todas as suas dimensões, o que diminuiu o seu valor enquanto forma de expressão artística. A imagem fotográfica é basilar na comunicação através das redes sociais e de repente tudo se confunde: arte com snapshots, fotógrafos com “malta” que tira fotos a tudo e a todos, pretensos fotógrafos que produzem lugares comuns à velocidade da luz. Há exceções, especialmente no Instagram, mas são isso mesmo: exceções. O real valor da fotografia diminuiu muito desde que a explosão das redes sociais e dos telemóveis permitiu a todos produzir e partilhar imagens. Boas fotografias, bons trabalhos fotográficos são produzidos de forma adequada, com equipamento adequado, para serem visualizados em papel fotográfico pendurado numa parede ou numa revista ou livro impressos irrepreensivelmente. E isto é cada vez mais raro. O foto-ensaio tem vindo a perder a sua “aura” desde o final dos anos setenta. Pessoalmente, acredito num certo rejuvenescimento ou renascimento até da “velha” fotografia, embora produzida de forma digital. Por último todos podemos fotografar, mas apenas alguns produzirão arte.

 

Daniela Azevedo

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