Marta Dias num ano particularmente criativo: «A cultura está a sofrer com o fenómeno mundial da massificação»

Marta Dias

Vinte anos depois do lançamento de “Y U É”, o álbum de estreia, Marta Dias tem agora a compilação digital “Esse Meu Amor – Best Of”, que reúne os temas mais emblemáticos da sua carreira.

Ao longo de 20 anos de vasta cultura musical, Marta Dias cumpriu um ciclo de pesquisa das suas raízes que sempre a levou a criar canções em nome próprio que questionam uma identidade feita de múltiplas origens: Portugal, onde nasceu, São Tomé e Príncipe, de onde o pai é oriundo, e Goa, terra que viu o avô nascer.

A compilação, que sucede a “Quantas Tribos”, o álbum lançado no ano passado, abre com uma canção inédita, intitulada ‘Esse Meu Amor’, disponível mais abaixo, que marca o regresso de Marta Dias à escrita de canções e é uma parceria da cantora e letrista com o compositor, intérprete e produtor Carlos Barreto Xavier que a acompanha desde que começou a cantar, ainda menina.

Marta Dias - Esse Meu Amor
Marta Dias – Esse Meu Amor

Em duas décadas, Marta Dias percorreu e fundiu diversos géneros musicais, tendo encontrado uma expressão própria, particularmente bem ilustrada na canção inédita que dá nome à antologia e abre um novo ciclo. Se ainda há quem se lembre de a ver na Expo 98 a atuar no concerto de Kika Santos, então há quem compreenda que estes 20 anos de carreira não me podiam passar ao lado…

Marta Dias com Daniela Azevedo numa tarde rica de cultura musical
Marta Dias com Daniela Azevedo numa tarde rica em cultura musical

Daniela Azevedo – Este “Best Of” que saiu agora, que é uma compilação de várias álbuns, quantos anos de música reúne?
Marta Dias – Junta três discos; o meu primeiro “Y U É”, o segundo, “Aqui”, e depois seguiu-se um hiato de alguns anos até “Quantas Tribos”. Esse hiato deveu-se a uma colaboração com o António Chainho, que durou vários anos, e terminou em 2006. Parei uns tempos por razões pessoais e decidi retomar a música em 2010 com “Quantas Tribos” que demorou muito tempo a compor porque é um disco todo dedicado a poetas são-tomenses e fomos apresentá-lo a São Tomé só com voz e guitarra. Depois gravámos em 2015 e lançámos esse trabalho no ano passado.

DA – Este “Best Of” tem, no entanto, uma canção inédita, ‘Esse Meu Amor’. Como surgiu? É dedicada a alguém de olhos castanhos…
MD – ‘Esse Meu Amor’ é dedicada a uma pessoa de quem eu gosto muito [risos]. A canção foi escrita em 2003 e eu decidi musicá-la agora porque, só este ano, em conversa com a editora, é que concluí que passavam 20 anos desde o lançamento do meu primeiro CD. Em conjunto decidimos lançar esta compilação e pareceu-me bem assinalá-la deste modo.

DA – E só foi lançado no digital?
MD – Sim. O “Quantas Tribos” lancei em formato físico e digital mas este é só digital porque estou a trabalhar num novo projeto com o Carlos Barreto Xavier e vamos fazer, ainda este ano, um novo disco a dois. Não fazia sentido estar a lançar dois discos novos no mesmo ano. Estamos a viver num mercado de transição, não sabemos se o CD vai mesmo desaparecer, estamos em tempos interessantes mas incertos.

DA – A colaboração com o António Chainho já vem desde 1998. Como foi esse período? Há, de certeza, momentos muito marcantes para recordar…
MD – Há sim, muitos, especialmente pelas viagens que fizemos juntos e por ter conhecido um cavalheiro, um gentleman, que ficará para sempre na nossa memória: o nosso viola Fernando Alvim. Eu tinha convidado o Chainho para participar no meu primeiro disco, porque tenho uma “citação” com a Mouraria de então que, na altura, estava muito degradada e eu decidi cantar sobre o lado menos bonito da Mouraria que descrevi como uma “imagem virtual vendida como fado a toda a gente”. Na altura eu achava que estas coisas tinham que ser denunciadas e decidi fazer uma letra polémica. Tinha convidado o Chainho para participar nesse tema. Por questões de agenda ele não pôde mas depois convidou-me para participar no disco que ele ia lançar, “A Guitarra e Outras Mulheres”, de 1998. Claro que nasceu uma amizade muito grande. A minha canção, ‘Fadinho Simples’, começou a ser muito tocada nas rádios. Naquela altura não havia muito fado; só talvez o Camané e a Mísia, e muito menos havia fado a passar nas rádios, por isso as pessoas acharam graça ao facto de eu cantar fado sem ser à fadista. Essa colaboração culminou com o disco ao vivo no CCB e seguiram-se muitos concertos pelo mundo inteiro.

DA – Mas não foi só ele a grande colaboração da tua vida artística, pois não?
MD – Em Portugal o General D foi o responsável por me pôr a cantar. O meu irmão era rapper e apresentou-me, num jantar, ao General D. Ele desafiou-me a passar pelo seu estúdio no Pinhal Novo para cantar umas coisas. Cantei o ‘(You Make Me Feel Like) A Natural Woman’ da Aretha Franklin e mais umas coisas jazz… e ele disse “Ok, agora experimenta lá esta…” e foi assim. Lá comecei a cantar com ele, demos vários concertos em conjunto, e o mais marcante foi na Festa do Avante para milhares de pessoas… foi extraordinário… e lembro-me bem de outro, no Jardim do Tabaco… ‘Ekos do Passado’ é uma canção contra os poderes instituídos da altura, e lá estava eu, polémica, muito contente a cantar contra o regime [risos], é uma natureza contestatária que eu tenho. Com Ney Matogrosso também foi uma colaboração muito interessante. Em 2000 participei no Pão Music, no Parque do Ibirapuera, e foi muito engraçado porque o Ney Matogrosso tem muita projeção e cantámos juntos ‘Rosa de Hiroshima’. Eu cantei um bocadinho à fadista e ele riu-se com isso. No final, dei-lhe um CD meu e o concerto correu muito bem. Tenho muitas memórias boas das viagens com o Chainho ao Sri Lanka, à Tailândia, à Indonésia, a Moscovo…

DA – Como é que povos com uma cultura tão diferente da nossa entendiam a vossa música?
MD – Nós tivemos sempre muito boas experiências com o público e não cantávamos só para as comunidades portuguesas. Em Jacarta estávamos a cantar numa sala muito grande, não havia nada destas questões de terrorismo e insegurança, quando uma das pessoas fechou uma porta que não devia e cortou o cabo de alimentação do PA. Isto podia ter sido muito complicado porque, debaixo do cabo, estava uma menina que, se não tivesse o chador, tinha apanhado um choque muito grave! Ficámos sem luz e sem som mas virei-me para os mestres Chainho e Alvim e continuámos o concerto assim mesmo [risos]. Foi ótimo, toda gente adorou e deu tempo à equipa técnica de recuperar o som. No Sri Lanka fomos os primeiros a tocar lá desde a época dos Descobrimentos, foi muitas vidas depois, extraordinário.

DA – Voltando um bocadinho atrás na conversa, achas que os artistas têm essa responsabilidade de contestarem o que vai afetando a sociedade ao longo dos tempos?
MD – Acho que sim. Hoje falo menos e faço mais. Quando um artista fala sobre determinada situação, essa injustiça, esse problema ganha mais visibilidade, porque, apesar de um músico ser uma pessoa da sociedade civil, é alguém que é mais ouvido.

DA – Do teu ponto de vista, como está hoje em dia a cultura?
MD – Está a sofrer com o fenómeno mundial da massificação. Acho que a democratização dos meios de produção de música levaram a uma massificação muito grande. Entendo que, de um modo geral, não há muito a visão que havia antigamente: a de carreira. Criar um artista, acompanhá-lo, esperar que atingisse a maturidade, dar-lhe tempo, deixar que fizesse dois ou três discos para atingir o seu patamar… Hoje em dia não funciona assim; fazem-se dois ou três discos, com sorte, e depois cai-se no esquecimento. Sinceramente, acho que este é o problema principal. Gostaria que as pessoas soubessem e se dessem conta que é preciso tempo para se construir uma carreira e tempo para nos mantermos vivos e ativos neste mundo. Acho que são os artistas que têm de ter essa consciência porque hoje em dia vejo muita gente a querer sucesso para… daí a umas semanas. Eu acredito que este é um problema grave porque também leva a muita desilusão. Há pouca paciência e noção do tempo que se leva a construir uma carreira na música. Portanto, jovens que estão a ler, levem tempo, pensem bem, estudem, aperfeiçoem-se, pensem no que querem mesmo fazer, em tudo o que vos faz sentido, cantem os poetas ou as vossas letras mas que falem do vosso mundo. Estruturem a vossa vida artística.

DA – Certo é que os concertos ficaram e nesses fica sempre testemunhado quem tem, realmente, talento, não te parece?
MD – Absolutamente! Tive um concerto há pouco tempo na Casa do Alentejo, na Gala Solidária de São Tomé e Príncipe que visou apoiar os doentes que vêm para Portugal em junta médica e que vivem em situações de grande carência. A Goretti Pina, uma estilista são-tomense fenomenal, foi a organizadora do evento juntamente com a Maria Semedo e o Ismaël Sequeira, com o apoio institucional da embaixada são-tomense, que já ajuda cerca de 400 doentes diretamente, mas há cerca de 1500 em Portugal porque todos os anos chegam 200 e as patologias não se resolvem todas apenas num ano. Participei na gala com a minha banda maravilhosa, com o Carlos Barreto Xavier, com o brasileiro Iuri Daniel e o Ruca Rebordão, e é com essa banda que vou andar na estrada até ao final do verão.

DA – Estou completamente fascinada por São Tomé, acho que está na altura de conhecer a ilha.
MD – É muito bonita, mas isso vê-se nas fotografias. O que te quero dizer é que tem uma riqueza humana extraordinária e artistas fenomenais: bons poetas, pintores e música tradicional lindíssima; é uma jóia a descobrir. O “Quantas Tribos” falava precisamente dos poetas de São Tomé. É a terra do meu pai.

Daniela Azevedo

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *