20 anos de “Trigger” dos Blind Zero: antigo não é velho

Blind Zero no concerto de celebração dos 20 anos de "Trigger", na Casa da Música, no Porto, a 29 de janeiro, fotografados por Hugo Viegas

Voltar atrás no tempo não tem de ser sinónimo de melancolia ou de triste fado da vida. Pelo menos, desde que os Blind Zero nos habituaram às suas celebrações de 20 anos, que o rock made in Portugal ganhou outro estatuto e recordar o melhor dos anos 90 passou a ser (quase) regra para a banda do Porto que se prepara para trazer novidades ainda este ano.

Com a Sala 2 da Casa da Música, no Porto, cheia até à porta, o ambiente estava, seguramente, longe de ser aquele que inicialmente tinha sido pensado para aquele espaço e mais perto dos pavilhões que animavam as festas de fim de ano e de viragem nos finais de percurso nas C+S. Sala quente, apertada ao ponto de ouvirmos a conversa do grupo ao lado, copos de cerveja e fumo no ar para um palco sempre a puxar para tonalidades mais escuras. «Ainda por cima, o “Trigger” foi gravado bem perto da Casa da Música, nos estúdios Poltergeist, na rua da Boavista, o que faz o concerto mais especial ainda», dizia Miguel Guedes antes da noite de sexta-feira, dia 29.

Blind Zero no concerto de celebração dos 20 anos de "Trigger", na Casa da Música, no Porto, a 29 de janeiro, fotografados por Hugo Viegas
Blind Zero no concerto de celebração dos 20 anos de “Trigger”, na Casa da Música, no Porto, a 29 de janeiro, fotografados por Hugo Viegas

Há 20 anos os Blind Zero estavam a lançar o seu primeiro álbum, “Trigger”, que se tornou icónico ao conquistar o galardão de Disco de Ouro, o primeiro para uma banda de rock portuguesa a cantar em inglês. A fazer jus ao prometido (tocar o “Trigger” na íntegra), as seis primeiras músicas saíram precisamente daí: ‘Into the Mystic’, ‘Big Brother’, ‘Nowhere’, ‘No Soul’, a fantástica e saudosa ‘Woman’ e ‘Keeping in Wonder’ já com Mário Benvindo em palco para que a homenagem fosse completa. «O “Trigger” foi comparado a muita coisa mas eu acho que era um disco de heavy metal», diz o vocalista Miguel Guedes, como que a justificar tanta loucura. Mário Benvindo e Marco Nunes, que se juntou mais à frente, foram os primeiros guitarristas que acreditaram, compuseram e gravaram com o projeto, dando o impulso necessário a uma banda que estava a dar os primeiros passos.

Miguel Guedes (voz e guitarra), Nuxo Espinheira (baixo e voz), Bruno Macedo (guitarra e voz), Vasco Espinheira (guitarra), Pedro Guedes (bateria) e Miguel Ferreira (teclados e voz) deram tudo o que tinham para fazer deste um concerto pleno de celebrações para eles próprios e para o público presente, claro. Com o primeiro “intervalo” a ser feito no disco de estreia chega ‘Skull’, de “Redcoast”, sempre a “rasgar”, sem temores e com o público a vibrar e a entregar-se cada vez mais.

Após o concerto dos Blind Zero na Casa da Música
Após o concerto dos Blind Zero na Casa da Música

Definitivamente a calma não mora aqui e sente-se que há um espírito de partilha entre os fãs que, na década de 90, tinham nos Blind Zero o expoente máximo do que de melhor (e único?) se fazia por cá por comparação ao movimento grunge que nascia em Seattle, ainda que hoje em dia a banda de Miguel Guedes siga uma sonoridade diferente, mais melódica e mais permeável a outros públicos. ‘Shine On’ e ‘Amen’ trazem a desejada acalmia para rockeiros e fãs que voltam a ficar eufóricos com a subida ao palco de Marco Nunes, também ele da 1.ª geração dos Blind Zero, a receber um enorme apoio dos presentes em ‘Heart Of Mine’ e ‘My House’.

‘Slow Time Love’ e ‘Back to the Fire’, ambos já de “Luna Park”, de 2010, soam refrescantes embora se ouçam alguns “buuhhhs” vindos da multidão que os aplaudiu o tempo todo. Há, claramente, uma geração mais recente de fãs e outra que vem desde o “Trigger”, a que não hesita em gritar, com alguma graça, «ai que agora está a dar-lhes para o romance».

Novamente no segmento grunge ou mais independente ainda vêm ‘Wake Up (Gloria)’ e o completamente eletrizante ‘Maniac Inland’ que antecede três (sim, não é typo), três encores: um com ‘Water’ e ‘More Than Ever’, ainda a fecharem “Trigger”, outro com ‘Snow Girl’ e o muito pedido ‘Recognize’, que assume, talvez, o papel de eterno cartão-de-visita do grupo portuense. Ninguém faz por sair dali e ainda vêm todos para uma versão long play de ‘Keep on Rockin’ in a Free World’, que Neil Young popularizou na viragem para os 90’s.

No final, não há uma corrida para as portas mas sim uma corrida para a frente de palco onde uma bomba de gasolina e outra de gasóleo em estilo vintage recuperam a capa do álbum onde se via uma pistola mas da mangueira de um posto de abastecimento.

Blind Zero no Porto - bomba de gasóleo em palco
Blind Zero no Porto – bomba de gasóleo em palco

Daniela Azevedo

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